. Esta é a história do homem que um dia se fechou em casa.
“A vida não está para passeios”, dizia entre dois posts.
Sentado à secretária, escrevia.
As palavras saiam-lhe dos dedos como outrora lhe escorriam dos lábios: a mesma verve, a mesma vida, a mesma ironia. Agora letras, antes sons.
Fez amigos – mais de quinhentos.
Seguido por mais de mil pessoas, nunca se mostrou a nenhuma.
Deixou de abraçar. Passou a interagir.
Os sorrisos? Smiles. As gargalhadas, LOLs.
“Brilhante”, diziam. “Sensível”, afirmavam.
As suas frases tornaram-se célebres. Os seus poemas, citados por muitos.
Foi nomeado por quem nunca o viu, ganhou prémios que nunca saiu para receber.
Todos lhe conheciam o estilo, ninguém lhe sabia a voz.
Escreveu cartas – muitas.
Os seus poemas despertaram sorrisos. Os seus textos, lágrimas.
Os seus livros – dizem – luz.
Um dia morreu. Sentado à secretária, parou de escrever.
No seu funeral, ninguém.
Mas, na rede azul, a notícia da sua morte foi partilhada por todos.