“Tudo precisa do seu tempo

“Tudo precisa do seu tempo”

Foi numa das subidas de elevador – quando eu carregava pela terceira vez na tecla para fechar as portas – que ouvi isto, dito com uma serenidade que me fez olhar para a senhora com quem partilhava o elevador.

| e eu parei dois segundos, respondi “tem razão” quase com vergonha, e sorri para a senhora que – carregada de equipamento de limpeza – me sorriu de volta |

– Tudo precisa do seu tempo, até as coisas.

Passámos 3+2 dias na Madeira, no Funchal. Uma viagem feita em parte-família (o mano não pode ir), com avós filhos genros e netos. Três dias planeados, dois dias fora do plano devido ao cancelamento de um voo que eu tinha-porque-tinha de apanhar, e que tinha-porque-tinha de ser mais cedo (às 15h, e não às 22h), porque no dia seguinte tinha-porque-tinha de trabalhar logo cedo porque tinha uma semana de três dias super-super organizada.

Depois o voo é cancelado. Depois o coração dispara. Depois penso como vamos fazer, nove pessoas, dois avós e duas filhas e dois genros e três netas, onde vamos ficar durante dois dias até conseguirmos regressar. Depois vamos para a fila para receber informações, e para perguntar “e agora??”, e depois a TAP trata de *tudo* (tudo. mesmo tudo) e damos por nós, umas três horas depois, a chegar ao hotel onde ficaríamos mais dois dias.

E depois de toda aquela ansiedade e de todo o “e agora?”, demos por nós – dois avós, duas filhas, dois genros e três netas – sentadas a uma mesa comprida, a jantar num espaço tão bom, mas tão bom, que como disse a minha mana “os papis estão a ter a lua de mel que não tiveram quando casaram”.

E ainda que eu tenha passado metade do tempo desses dois dias a tentar trabalhar, sem computador e num ecrã muito muito mais pequeno, a pedir cabimentações de despesa e a preparar pedidos de renovação de projeto e a responder a mails no teclado do telefone (eu, que uso apenas o indicador para escrever neste teclado…), a fazer aquilo que era possível fazer, e ainda que – para conseguir colocar tudo em ordem – tenha trabalhado ontem, e hoje de manhã, e precise de trabalhar segunda, percebi que – efetivamente – tudo precisa do seu tempo.

A Madeira é linda, foi um passeio maravilhoso (a mana organizou tudo), vimos coisas lindíssimas e caminhámos em média 10kms por dia. Nos últimos dois, percebi a necessidade que tinha de me voltar a ligar às pessoas, aos sabores, aos cheiros, ao toque. O trabalho é sempre muito, é certo, mas não era isso que me andava a preocupar. Era o desligar, o desconectar, o sentir que os dias passavam e passavam e passavam e que eu andava cada vez mais dormente, mais adormecida, mais automática.

E penso sempre que alguém (lá em cima, que vela por todos nós) percebeu isso e – sei lá!!! – decidiu que era altura de voltar a sentir.

Foi um reconectar forçado. Foi um parar inesperado. Foi o tempo que era preciso. E foi uma oportunidade para voltar a respirar com os cinco sentidos. E isso foi muito, muito, muito bom 🙂

Obrigada TAP ^-^. Obrigada Pestana Carlton Madeira ^-^. E obrigada aos ventos fortes :D, que nos retiveram na ilha mais dois dias.

Nota: o voo de regresso, dizem, foi calmo. Não sei – dois comprimidos tomados 10 minutos antes de embarcar fizeram-me dormir a viagem toda. Não valia a pena estragar tudo com uma crise de ansiedade 😛

sonhos

(e de repente, no meio de uma conversa, lembrei-me de como – em tempos que felizmente agora são idos – a(s) acalmava antes de dormir, conduzindo os seus sonhos ainda tão pequeninos por um percurso cheio de luz, nuvens de algodão doce e arco-íris suaves e quentes.
de como procurava que o pesadelo (o medo?) se fosse antes que se tornasse demasiado grande.
de como lhe(s) dizia, baixinho, que “agora pensa que és como a Pinkie Pie. E que estás a voar, a saltar de nuvem em nuvem, e as nuvens são de… “algodão doce?”… sim, de algodão doce. “e a que sabem?”… ao que queres que saibam? a morango, a chocolate? e lá ao fundo, fundo, longe mas cada vez mais perto, está um arco-íris enoooorme, lindo, lindo. e tu saltas muito alto, como a Pinkie Pie, e estás lá em cima e escorregas muuuuito suavemente até caíres numa nuvem fofinha. “de algodão doce?” sim, de algodão doce, tão doce como tu :).

e de repente quase choro, e disfarço que quase choro, porque as mães das crianças pequenas são as guardiãs dos sonhos e as destruidoras dos pesadelos, as que protegem os sonhos tranquilos. e fizemos (fazemos?) isso noite após noite, história após história, afago após afago, divididas entre a esperança de que um dia ela(s) fossem capazes de afastar – sozinhas – os sonhos maus, e a saudade que sabíamos que viria naquele dia/noite em que pudéssemos, finalmente, descansar e depor as armas)

recomeço.

a Mariana ligou. tirou a sua primeira negativa num teste.

ela esperava mais, a professora diz-lhe que esperava mais. está desiludida, chora, triste. e eu digo-lhe que estou aqui, que vou estar mais aqui.

nos últimos tempos (anos?) a corrida tem sido intensa. não frenética, por vezes dura, mas sempre intensa. tentar recuperar terreno que se perdeu, tentar acompanhar o passo de quem já está na pista, não é fácil e requer muito: tempo, dedicação, esforço, concentração. por vezes, querer (ou nós achamos que sim) que troquemos as nossas prioridades e que olhemos para a meta e não para o caminho.

na semana passada, perguntaram-me “qual é o teu farol?”. respondi “a minha família”.

a minha família – as minhas filhas, o meu marido – são o meu farol, o meu chão e o meu caminho. e nesta pressa de recomeçar, receio que me tenha desviado dele. ou que tenha apenas andado a caminhar/correr pelas beiras, olhando para a estrada mas sem colocar o coração nela.

é hora de me centrar, de recomeçar. não é dissonância cognitiva (será?), é uma necessidade – esta sim, URGENTE – de me sentir no lugar que estou. de me sentir aquilo que sou.

e ainda que isso signifique ser muita coisa ao mesmo tempo, que seja uma coisa em cada tempo.

é isso.

Dia do pai

Ao pai guloso.

Aquele que “come as bolachas todas” (como elas diziam quando eram pequenas), que deixa o saco de gomas vazio e dá cabo dos cereais enquanto vê um filme.

Ao pai galinha.

Aquele que não as deixa sair sem casaco mesmo que estejam 24 graus e que diz, todas as noites, “não gosto nada de ver esses pés sem meias”.

Ao pai que se esforça.

Por não reclamar quando as duas se atrasam por causa do eyeliner. Por não protestar quando a bateria dos auscultadores está quase a zero, porque elas os usaram e esqueceram de carregar. Por tentar não se passar numa casa cheia de mulheres.

Ao pai que se preocupa. E que as protege. E que as ama. Sempre, sempre sempre.

Feliz dia do pai, amorzinho ^-^

Vê lá se acordas, que as meninas prepararam uma surpresa para ti 😃

Paula

O problema de nos ligarmos às pessoas é que, quando elas partem, arrancam um pedaço de nós.

A Paula Minhoto entrou na minha vida durante um projeto Erasmus. Esteve connosco a construir o Gamers4Nature+, esteve connosco nos trabalhos, esteve connosco nos encontros onde a saúde lhe permitiu estar.

Esteve connosco na Irlanda, em Galway. Com ela e pelo conhecimento que ela transmitia recordei e aprendi o nome das rochas, das areias, de alguns bichinhos que só existem em alguns lugares do planeta. Foi ela que me ensinou que estas linhas brancas (uma foto que ela tirou e que eu guardei para mostrar cá em casa) não são pedaços de lixo no cimento mas são restos de criaturas antigas que se tornaram visíveis nas pedras, e que ajudam a conhecer os fenómenos geológicos que transformaram uma região.

A Paula deixou-nos hoje, depois de muita luta e de muito sofrimento. Hoje é um dia muito triste para todos os que tiveram o grande privilégio de a conhecer.

A esses, um enorme abraço.