sobre o amor


. Tenho pensado muito nisto, no amor. Um pensamento estranho – contudo incontrolável e incontornável -, quando as notícias só falavam de crise, de solidão, de falta de afecto… não é?

Num destes fins-de-semana, num dos projetos em que me envolvo uma vez por mês, tive acesso a uma lista de nomes de pessoas que, este ano, fazem 50 anos de casados. 50 anos. Cinquenta. Casados em 1962, quando o namoro era pouco mais ou muito menos que um beijo, quando não se gostava – porque não se conhecia nem se sabia – dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas viagens ou da mesma música.

E foi isto mesmo que me fez pensar no amor. Que amor é este, que amor foi este, como surgiu este amor num tempo em que o namoro (como nós o conhecemos) não existia? O que terá levado estas pessoas a gostarem uma da outra, e a decidirem construir – ao longo de uma vida felizmente longa – uma vida feita de duas vidas?

Na segunda, a visualização de um vídeo partilhado por um amigo no Facebook fez-me de novo pensar nestas coisas. Lembrei-me de um casal que tenho o privilégio de conhecer: os dois na casa dos 70, ele com o corpo dobrado pelo tempo e ela com a mente quebrada pelo alzheimer.
Passeiam os dois, de braço dado, ela a perguntar – de cinco em cinco, de dez em dez minutos – o nome das pessoas com quem se cruzam. E, de todas as vezes, ele aperta-lhe a mão e responde com doçura: “é a Mónica, é o Carlos, é…”. Vez após vez. Repetição após repetição. Sorriso após sorriso. Sem nunca se cansar, sem nunca se irritar. Uma tarde inteira.

E eu pergunto, na ignorância dos meus 36 anos: que amor é este, paciente e que nunca se enerva? Que afecto é este que dura e se renova enquanto as memórias se apagam?

E lembro-me, ainda, daquela senhora que aos vinte e poucos anos fica viúva, com quatro filhos pequenos, aos quais não deseja impor o amor de um novo pai. E de como – vinte anos depois – recebe com doçura e gratidão o amor de um homem que a amou toda a vida, que respeitou o desejo dela e esperou, durante todo esse tempo, pela retribuição e confirmação do amor que sempre sentiu. E que viveu, com ela e junto dela, 16 anos de uma felicidade imensa.

E eu pergunto: que amor é este, feito de fé, que perdura ao longo de duas décadas, alimentando-se do desejo e da promessa de vir a ser – um dia – aquilo que durante esse tempo foi só uma esperança?

São histórias que conheço, que me são próximas e para as quais olho com carinho.
Porque um dia gostava de responder às questões que coloco hoje. Porque olho para mim, para nós…
e penso que nos faz falta amar assim…



“Sobre o amor” foi escrito em Fevereiro de 2012. Dois anos de Mariana, fase muito introspectiva, tempos de reflexão. Hoje, 5 anos volvidos, continuo a sentir que o amor deve ser assim: paciente, feito de pausas, de sossego. Vivemos no rápido e no imediato, e o amor precisa de tempo. Precisa, não precisa?
“Sobre o amor” foi publicado originalmente na Obvious em Fevereiro de 2012]


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