. quando era pequena colaborava no jornal da paróquia com umas crónicas meio histórias meio sentimento. seguiam, invariavelmente, uma linha editorial um pouco moralista ou catequética que devia despertar, nos poucos leitores que as seguiam, o desejo de abanar a cabeça e dizer “enfim”. eram chatas, reconheço agora, mas ninguém nasce perfeito e a escrita – como qualquer arte – requer tanto de entusiasmo como de amadurecimento.
lembro-me como se fosse ontem do dia em que um amigo me confessou que as lia, todos os meses. e que por uma ou outra vez aquilo que eu escrevia fazia-o pensar e decidir coisas que só dele dependiam. lembro-me, como se fosse ontem, de ter corado até aos cotovelos com a ideia de que aquilo que eu escrevia – mais por obrigação que por devoção – fazia sentido para alguém. devo ter sentido, na altura, o choque que sente um autor publicado ao ver alguém a comprar um livro seu: as minhas palavras já não me pertencem, porque já fazem parte do “eu” de alguém.
a partir dessa altura – e até à altura em que simplesmente deixei de escrever naquele jornal – as minhas crónicas passaram a ter outro sentido. como os prisioneiros que, nos filmes, trocam mensagens dentro de livros ou bolos, os meus textos tinham mensagens escondidas, detalhes que lhe permitiam – a ele – saber sobre o que falava e sobre o que escrevia.
quando descobri este mundo dos blogs recuperei, como por milagre, aquele gosto pela escrita de que já sentia saudades. como antes gostava de ver a caneta a desenhar letras no papel, gosto agora de ver os caracteres a surgirem no branco, um a um, até formarem palavras, e frases, e ideias.
há, no entanto, diferenças: raramente escrevo posts com um destinatário em particular. aquilo que escrevo escrevo porque gosto, porque preciso, porque me sabe bem. esta “caixa” é como um canto da minha casa, na esquina da janela com o chão, onde me posso sentar e encostar, aqueles cantos que não trocamos por sofá nenhum.
este post é, contudo, diferente. porque é dedicado a quem o fez surgir. se não o texto – que como quase tudo o que escrevo, só faz sentido quando for sentido – pelo menos o título.
é que há coisas – como a confiança – que são preciosas. e esse é sempre um bom motivo para escrever.