. quando eu era pequena diziam-me que nada se consegue sem esforço, ou que só quando lutamos por alguma coisa é que ela sabe bem.
não é, de todo, verdade. há coisas que quase nos caem no colo e que, nem por isso, têm o seu valor diminuído por terem sido alcançadas de forma mais ou menos fácil. são, simplesmente, acasos felizes – e tão felizes – que nos fazem acreditar que Deus existe, que o destino é uma coisa linda ou que nascemos, realmente, com o dito virado para a lua.
há também quem defenda que só damos valor às coisas quando as perdemos. sou forçada a concordar, uma vez que só me apercebi da importância que tinha para mim a aliança de casada e o anel de curso quando um jovem, de certeza para pagar a prestação ao banco ou para ajudar um necessitado, se lembrou de arrombar uma janela e fazer um tour pela minha casa sem a minha autorização. neste caso, vi como o “vão-se os anéis, fiquem-se os dedos” é uma máxima cheia de sabedoria e com certeza desenhada por alguém que já passou pelo mesmo. mas adiante…
respeito muito a sabedoria popular, pensando mesmo que os ditados e os provérbios se deviam ensinar na escola como se ensinam os nomes dos rios e dos reis: são parte da nossa cultura, na nossa história, da nossa alma enquanto povo e enquanto pessoas. seria uma espécie de “base” para a formação da consciência, um pacote a ser discutido, debatido, analisado. algo que não fôssemos obrigados a aceitar mas que nos fizesse pensar e descobrir os valores e as crenças que são dos outros, de outros, e que podemos querer tomar ou adaptar como nossos.
é por isso que quando me dizem que só damos valor às coisas quando as perdemos franzo um pouco a testa e observo que “só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. como quando percebemos que uma amizade que não cultivámos se perdeu ao longo dos anos. como quando vemos que não abraçámos os nossos pais todas as vezes que podíamos. como este verão, quando pensei que alguém que faz parte do meu passado e do meu presente poderia não estar no meu futuro.
hoje apanhei um susto, quando tentei aceder a esta caixa e a vi, por segundos, vazia. por momentos que pareceram uma eternidade vi uma parte dos meus pensamentos escritos, daquilo que me faz e me ajuda a ser “eu”, desaparecer no vazio das redes e das ondas e dos fios. e percebi que este blog não é apenas um conjunto de textos: é o registo de uma parte da minha pessoa, um espaço onde as letras e as palavras me ajudam a descrever aquilo que sou.
“só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. é… a partir de agora vou sempre fazer backup 🙂