. Gosto de imaginar que os livros acumulam as ideias e os sentimentos das pessoas que os lêem e que, por isso, quanto mais velho for um livro mais emoção consegue transmitir. Gosto de pensar que os livros que tenho no quarto (e que foram escolhidos a dedo e a letra) se abrem durante a noite e que as suas ideias e palavras percorrem o ar enquanto eu durmo. E que é por isso que os meus sonhos têm cores e sinto cheiros e texturas, e que é por isso que, num ou outro sono, sonho com pessoas que nunca conheci.
E gosto de imaginar que, quando sonho com um desconhecido ou conhecido, esse (desconhecido ou conhecido) também sonha comigo. E que, num dos milésimos de segundo que dura o sono, nos encontrámos no mesmo espaço que não é físico e vivemos algo juntos. Algo que recordamos, mesmo sem saber o quê, quando nos encontramos acordados e dizemos “eu conheço-te de algum lado, não conheço?”.
Gosto de imaginar que há coisas sem nome, ainda à espera de serem. E que os sons que não são palavras são as ideias no seu estado mais puro. E que, se nos esforçarmos um pouco enquanto fechamos os olhos, seremos capazes de conhecer mais do que aquilo que os olhos captam. E que poderemos, enfim, compreender que o mundo e a vida se definem por mais do que as coisas e as palavras que já existem.
Que estas são apenas uma pequena parte, aquela que já foi descoberta.
E que, nos sonhos, temos muito mais para descobrir.