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– Gostas de mim?
– Sabes que sim.
– Porquê?
Ah, este nosso hábito de classificar, codificar e avaliar tudo em palavras. As coisas – objetos, sentimentos, criaturas – só existem quando uma designação lhes é dada, como se as coisas e os objetos e os sentimentos se resumissem e definissem pelas letras que compõem o seu nome.
Precisamos de explicação para tudo. Tudo tem de ter uma razão, um sentido, analisado com um método. Um “sim” não nos basta, e um “não” tem de ter um porquê. Aquilo que não conhecemos perturba-nos, aquilo que não sabemos como definir tira-nos o equilíbrio.
Precisamos de estabelecer uma relação entre isto e aquilo, saber onde tudo fica, para que o cérebro – que se habituou à lógica e à matemática e à razão que o coração desconhece – compreenda, perceba, classifique, para que assim tudo faça sentido.
E dizemos que é amizade ou mais que isso, que é amor ou menos um pouco, que é paixão mas não tão quente quanto. E isso cansa. E como acreditamos – pela experiência que achamos ter – que as palavras perdem o sentido quando as dizemos muitas vezes (experimentem dizer céu vezes sem conta, e perceberão o que quero dizer com isto), evitamos repeti-las e guardamos, para quando e quem merece, aquelas (palavras) que nos são caras.
Ou então codificamos. E o amor é filial, ou paternal, ou conjugal. E temos melhores amigos, e amigos de ocasião. E tentamos – nesta ânsia insana de designar e codificar tudo – criar escalas de valores para, num olhar mais ou menos demorado, sermos capazes de perceber onde nos encontramos. Onde colocamos o outro relativamente aos outros. Onde fica aquilo que sentimos e que, ainda não sendo amor, também já não é amizade.
– Gostas de mim?
– Sim.
Desta vez não perguntei porquê. E assim fiquei feliz.