A caixa

. Este espaço não se chama “A Caixa” por acaso. Há alguns tempos que – de tão distantes – se tornaram anos, escrevi num outro espaço que

“a minha casa está cheia de gavetas, e as minhas gavetas cheias de caixas. em cada caixa de cada gaveta desorganizo as minhas memórias, as minhas lembranças e e tudo o que pretendo esquecer, o importante e o dispensável: uma vez por outra, abro uma gaveta, tiro uma caixa, e admiro-me com a quantidade de coisas que fugiram para lá…

tenho caixas de madeira, pequenas, para os bilhetes de autocarro das viagens inesquecíveis, para os de cinema das sessões que marcaram aqueles 120 minutos da minha vida, e para as tampas das garrafas bebidas em boa companhia.
tenho caixas de cartão para as fotografias – que me recuso a pôr em álbuns, organizadinhas por datas ou acontecimentos; para os negativos e os rolos ainda não revelados (gosto sempre de ter fotografias por revelar… gosto de tentar adivinhar que imagens estarão gravadas naquelas películas); para os desenhos mal-amanhados, feitos num bocado de papel roubado à toalha do restaurante… para os versos sem rima, ou para as rimas sem verso…
por tudo isto adoro as gavetas e as caixas que estão lá dentro… porque como não são organizadas, nem catalogadas, nem identificadas, cada dia que passo numa delas é uma surpresa.
e o melhor não é o lugar onde se quer ir, mas sim o caminho que se fez para lá chegar.”

Já nessa altura escrevia em minúsculas, coisa que gostava e ainda gosto mas que, à força da persistência, acabei por abandonar.

Este espaço é uma caixa cheia de caixas, cheias de memórias que correspondem a um período de crescimento nem sempre fácil. Na escrita como na vida, arrumo as coisas em caixas, compartimentos, para conseguir manter a sanidade suficiente para continuar. Só assim se consegue viver, não é? Quando não se consegue ultrapassar, aprende-se a gerir. A arrumar. A ordenar.

Este ano foi pesado. Sinto-me amassada, moída. Foi um ano tão pesado que, se não fosse a luz da Mariana e o (ainda) pequeno brilho da Margarida, seria um ano em que teria desistido. De tudo ou quase tudo. Mesmo daquilo que gosto de fazer.

Agora resta esperar. Aguardar. Não desistir só porque estou “na curva da estrada”, ainda que me sinta nesta curva há mais tempo do que aquele que deveria estar.

Não estou triste. Estou cansada. Muito cansada.

É. Está na altura de criar novas caixas. Tenho muito que arrumar.