. Hoje faz um ano que morreu um homem bom. Um ser não-perfeito, teimoso, com falhas como todos os seres. Mas um pai fantástico, um avô orgulhoso, um bom amigo.
Sinto falta dele, todos os dias, como nunca pensei sentir falta de alguém com quem não cresci. Mas é(ra) daquelas pessoas que deixam a sua marca por onde passam. Não a forçam, não a impõem, mas deixam.
Sinto a falta do meu sogro. Do homem que me trazia castanhas e medonhos que roubava pelo caminho; do homem que dividia comigo as bolachas de baunilha, porque eu não gostava do creme e ele não gostava da parte da bolacha que não o tinha. Do homem de dedos grossos, a escolherem as maiores e melhores castanhas para me dar. Do homem que me trazia, sexta sim sexta não, uma sandes de leitão só porque sabia que eu gostava. Do homem que, quando pensou que eu estava grávida, correu a Costa Nova à procura de caranguejos, só porque eu disse que me apetecia.
Sinto a falta do avô da Mariana. Do avô orgulhoso, inchado, que dizia “a minha neta” como quem dizia um poema. Que chamava “Mariana, ó Mariana!” de cada vez que aparecia em casa. Do avô que se embaraçava a contar histórias e que raramente pegava na neta ao colo, mas que a colocava no trator e a deixava fingir que conduzia; do avô que se molhava todo, só para a deixar regar.
Sinto a falta do meu amigo das manhãs de sábado, aquelas em que conversávamos enquanto se descarregava a lenha; ou se acarinhava a fruta; ou se podavam as árvores. Do amigo que plantou uma amora no meu jardim só porque eu gosto de amoras, e que fez um espantalho que não assustava ninguém só para afastar os pardais que nos comiam as cerejas.
Sinto falta de todos eles. Sinto falta dele.
Muita.
Hoje faz um ano que morreu um homem bom.
E a vida continua.