porque sim

.  por vezes, nos minutos que antecedem o sono, percorro lugares que não visito há muito. sei de cor alguns lugares, as divisões de algumas casas. da casa do meu padrinho – onde passei muito tempo há muito tempo – conheço a entrada, com o banco vermelho ao lado da janela, e a porta grande e branca. o corredor, com o escritório numa ponta e a sala de jantar na outra.

avanço, abro a porta da casa de banho debaixo das escadas (com um espelho pequeno, redondo e alto, ao qual só acedia quando me esticava até doer), depois regresso. sei a cozinha e as escadas que dão acesso ao primeiro andar. e as que dão acesso ao sótão. sei os quartos (seis), os corredores, sei onde o papel de parede lasca e onde estão pendurados os quadros trazidos das viagens mundo fora. sei todos os espaços. tivesse eu os cheiros, e a memória seria completa.

são poucos os lugares que recordo assim, tão bem e tão claramente. uns porque foram mudando, outros porque ainda existem e não há necessidade de os guardar. com esta casa é diferente, sempre foi diferente. talvez porque quem lá habitava era diferente e enchia cada minuto, na sua presença, com relatos de outros lugares e experiências. um homem que atravessava a ria (bestida-torreira) a nado, que já falava e fazia ioga antes do ioga ser moda, que respeitava todos porque era com respeito que todos deveriam ser tratados.

é das pessoa que mais saudades me deixa. gostava que, um dia, alguém pensasse assim a meu respeito.