. Neste final de mês de Abril, deste Abril frio e chuvoso, morrem dois miguéis. Um na semana passada, outro – se calhar – hoje. O primeiro um grande político (dizem aqueles que o seguiam), um grande homem (dizem aqueles que o admiram), um grande filho e um grande irmão (dizem aqueles que o amam). O segundo, um marido que – aos poucos, como acontece com o melhor do bem e o pior do mal – vai perdendo, nos dias e no coração, a companhia da mulher que ama.
Não há palavras – ainda que eles o tenham tentado – capazes de descrever o vazio que fica quando o nosso amor se vai. Não há letras suficientes, nem frases mais ou menos compostas, que possam dizer – a quem não sabe – o que significa perder alguém a quem se quer bem. Ou se sabe, ou não. Tão simples quanto isto.
Uns e outro terão de aprender a viver com a saudade fácil, e a difícil. A fácil, revelar-se-á nas lágrimas e nos sorrisos que a recordação do outro (que se foi) traz quando se a chama. A difícil… essa é a pior. É a saudade daquilo que não chegou a acontecer, dos encontros que não se fizeram, dos beijos que não se trocaram, das mãos que não se apertaram, porque a vida fez outros planos e não deixou que os planos e as vidas fossem aquilo que deveriam ser. É a saudade mais dolorosa. A saudade que aparece quando menos se espera, quando já se pensava que estava tudo em paz, quando – naquele momento mais ou menos forte, mais ou menos frágil – se sente e sabe que o outro alguém deveria estar ali.
Numa noite igual a esta, há muitos anos atrás, perdi um amigo.
E (depois de tanto tempo passado, neste final de mês de Abril) ainda sinto saudades daquilo que devíamos ser hoje.