. Há dias li, num outro espaço, que por vezes temos de falar das coisas para que ela possam passar.
Há sete anos, no último sábado do mês de outubro, fomos dar um passeio. Eu, Gonçalo, Mariana. O meu sogro tinha-nos oferecido uma ida a um parque temático, a ser usada até final de outubro, e no último sábado do último mês em que era possível ir, fomos.
Mariana pequena, ansiosa, com medo, com aquela angústia que nunca lhe desaparecia dos olhos. E eu com um peso no coração, chamando a cada minuto “Mariana, olha que lindo” na esperança de a ver animada. Um dia semelhante a todos os que o precederam, misto de nervoso e medo e felicidade por ter aquela prenda de Deus nos braços, e uma nova esperança a crescer dentro de mim.
Nesse dia, ao final do dia, já quase noite, soubemos que o meu sogro tinha tido “um pequeno acidente”. Regressámos no dia seguinte. O meu sogro, o avô da Mariana, o meu amigo, tinha sofrido um AVC. E nunca mais voltou a acordar.
Durante 10 dias li tudo o que havia a ler sobre recuperação, sobre os 10 dias que são decisivos, sobre estatísticas, sobre como lidar com esta incapacidade. E no fim dos 10 dias, ele morreu.
Todos os dias sinto a sua falta. Todos os dias penso no que seria se ele estivesse aqui, connosco, agora com quatro netos, com uma neta que seria o seu par em feitio e um neto que lhe recorda o sorriso malandro e o olhar maroto. Durante 10 dias acreditei que ele – a quem nada nem ninguém punha abaixo, que resistiu à infância dura e à idade adulta esforçada, que se fez grande e que era a vida personificada, pudesse morrer assim.
Ele morreu, e eu deixei de escrever.
Durante muito tempo de fazer sentido falar sobre coisas bonitas e sobre a importância da memória. Falar das plantas e não falar dele não faz sentido. Falar dos dias e dos passeios e não falar dele não faz sentido. Falar da vida quando ele não vive não faz sentido.
Mas como li há dias, por vezes é preciso encerrar capítulos. Não esquecer, não deixar passar, mas permitir-se seguir. Escrever, fechar o livro, prendê-lo nos braços, pousá-lo e deixar ir.
Ainda hoje penso que se não tivesse deixado aquele passeio para o último sábado do mês de outubro, talvez ele não tivesse estado sozinho no monte. Poderia estar na minha casa, no meu jardim onde passava as manhãs de sábado, a tratar das plantas que tanto amava. A cuidar do que era nosso. E que, se não tivesse deixado aquele passeio para aquele último dia, poderíamos ter chegado a tempo. E ele não teria ficado, sozinho, a sentir que os minutos passavam e que ninguém chegava para o acudir.
Sei que nunca, nunca irei deixar de sentir isto. Mas também sei que é altura de tentar avançar.
*obrigada, Cristina*