. sempre dei valor àquele sentido que alguns chama sexto mas que eu chamo “instinto”: aquele que nos faz fugir diante de um perigo que ainda não se concretizou, ou que nos faz gostar de alguém que ainda não conhecemos só porque sentimos que há ali algo de bom.
todos nós temos este sentido, com maior ou menor intensidade. alguns, contudo, deixaram-se convencer que esta coisa “de bicho” não era mais que preconceito ou pré-conceito, passaram a acreditar – mesmo sem saber porquê – que só a experiência vale, que esta coisa de sentir o que não tem ainda corpo é algo de estranho e esotérico e que, por isso mesmo – por ser estranho e esotérico – deve ficar fechado e guardado nos livros e nos filmes.
quando me dizem estas coisas sorrio, ou digo “tá bem”. mas, como cheguei àquela idade em que gosto de ser o que sou, continuo a deixar-me levar por este instinto.
deve ser por isso que, agora, faço amizades com facilidade. não me entrego facilmente nem crio laços com qualquer um, nada disso. faço amizades com facilidade porque deixo que este sentido – que alguns chama de sexto – me diga, na pele e na alma, se a pessoa que fala comigo merece ou não que perca tempo com ela, se vale ou não a pena. e não me tenho enganado 🙂 .uma das maiores amizades que tenho e prezo foi construída assim, na base do sentimento, e uma outra – que tenho vindo a cultivar devagarinho – assenta no mesmo princípio.
é que se deixarmos esse “sentido” falar mais alto e sobrepor-se às vozes da razão e da consciência, conseguimos ver no outro os valores que regem a sua vida, as emoções ou até mesmo o seu estado de alma.
quando a Mariana nasceu deixei, por instantes, que a razão e a consciência, e as razões e consciências das outras pessoas, falassem mais alto. durante uns instantes – que foram umas semanas – deixei-me invadir pela angústia de lidar com o que eu sentia que era correcto e o que eu tinha aprendido que era correcto. foi uma luta que me deixou quase exausta e, sobretudo, que me deixou com dúvidas quanto à minha própria maneira de ser.
agora – um agora que dura há uns bons meses – deixo-me levar pela maré, deixo que o instinto fale mais alto. se ela quer colo dou colo, se quer mimo dou mimo.
e, quando ela acorda e sorri para mim… sei que estou no bom caminho 🙂