. há pessoas cruéis. podem vir com aquela do “todos temos um lado negro”, com o “de génio e de louco todos tempos um pouco” mas crueldade, daquela que corrói, que mancha, que dá mau sabor na boca, essa é coisa de gente doente ou pura e simplesmente má.
recebi agora um e-mail de uma pessoa má. não me era dirigido directamente mas a maldade era tanta, o fel era tão espesso, que não consegui deixar de me sentir afectada pelas palavras tão conscenciosa e maldosamente escolhidas. mas… e agora?
aquela coisa da “dignidade” impõe que não se dê resposta. que não se dê à pessoa má a satisfação de ver a sua maldade explicada, dissecada, combatida. impõe-se (ainda mais pela delicadeza e natureza do assunto) que se deixe a pessoa falar, e repetir, e voltar a falar e voltar a repetir, até que se canse.
mas está mal. quando somos insultados e maltratados, ainda que apenas por e-mail, deveríamos ter a obrigação – porque o direito já o temos – de responder da mesma forma. de, a um “falta de imparcialidade” responder com um “prepotência”, de a um “falta de integridade” responder com um “idem”.
devíamos poder responder à letra. letra a letra. palavra a palavra.
mas não. porque somos superiores (ou inferiores), porque somos mais dignos, porque a pessoa não merece, não respondemos no mesmo tom. ou, pior ainda, não respondemos mesmo.
e deixamos que o fel continue a crescer naquela pessoa, que ela continue a falar mal na nossa frente e nas nossas costas, que continue a arrasar o nosso trabalho só porque não é o seu trabalho, que continue a ser como é: má. cruel.
está mal.
por isso é que eu falo a sério quando digo que queria acabar os meus dias velha, muito velha, e ligeiramente louca. para poder dizer “e tu és feia” quando me dizem “tu estás gordinha”. para poder dizer “não gosto de ti” a quem sempre me fez a vida negra. para poder dizer um “vai à merda” quando me apetecesse.
uma velha, ligeiramente louca, com acesso à internet. ah, isso sim, seria um bom final.
talvez nesse dia decidisse ser má.
mas, para já, resigno-me em ser digna. e a não dar resposta.