a minha mãe

.  a minha mãe tinha 10 anos quando começou a trabalhar.

no dia em que passou no exame da 4ª classe, com distinção e louvor, tinha à espera dela – à porta da escola – um carro quase novo. não era nenhuma prenda por ter terminado os estudos, nem mesmo o meio de trasporte para o jantar de comemoração do sucesso minutos antes obtido.

no dia em que terminou a 4ª classe, a minha mãe partiu no carro que a levaria à casa onde, com 10 anos, começou a trabalhar como gente grande. 10 anos. responsável por uma casa que não era a dela, cozinhando para uma família que não era a sua, chorando de saudades, à noite, numa cama que não conhecia.

quando a minha mãe fez dez anos e terminou a 4ª classe, a minha avó abraçou-se a ela a chorar. de tristeza. de saudades. porque a filha tinha dez anos e tinha passado no exame da 4ª classe e, agora, ia para longe, ganhar o dinheiro que em casa não havia.

dez anos.

deve ser por isso que entendo a revolta dos jovens de agora mas não consigo aceitar quando dizem que vivem pior que os pais. porque a minha mãe terminou a escola aos 10 anos, e eu estudei até aos 21. porque ela foi trabalhar a sério quando terminou a 4ª classe, e eu só soube o que era um horário de trabalho quando fiz 16 anos. porque ela era uma criança quando teve de sair de casa, e eu só saí aos 25.

o futuro é incerto, está difícil, há contas para pagar e pouco dinheiro para o fazer. aceito que me digam – porque eu também digo – que devemos estar preocupados com os tempos que aí vêm.

mas não aceito que me digam que estamos pior que os nossos pais.

porque a minha mãe começou a trabalhar com dez anos.