Ir ao fundo e voltar

. Quando era pequena não sabia nadar. Mais ainda, tinha um medo da água funda só comparável ao medo que tinha de andar de bicicleta e de fazer a “roda” (aquela coisa de ginasta em que o corpo roda e as mãos ficam no lugar dos pés).

Enquanto o medo de andar de bicicleta ainda perdura (só deus sabe o esforço que faço para não tremer quando um carro, pessoa ou moquito passa por mim a bulir), o da água foi sendo “tratado” à custa de muita paciência, insistência e persistência do meu padrinho, um homem muito à frente do seu tempo.

Dizia-me o meu padrinho, de cada vez que me levava às piscinas do Luso e me tentava fazer nadar: “Moça, não desistas. Bate os braços e as pernas que o ar que tens no corpo faz o resto. E, se fores ao fundo, é bom sinal: é sinal que estás mais perto de bater com os pés e voltar a subir em direcção ao sol”. E tinha razão, o meu padrinho. Nisto como quase em tudo. A não ser que o fundo seja de lodo, e o lodo nos prenda, não há como bater no fundo para ganhar força para voltar a subir.

Ontem foi um dia pesado para todos, e muito pesado para mim. Quem me conhece sabe que sou pessoa que se realiza com o que faz e não com o que ganha, e que o dinheiro, para mim, só tem valor quando é traduzido em coisas que me fazem sentir bem. Mas ontem, ao fim do dia, tive de me enrolar num canto e deixar, durante os 10 minutos que durou o choro, que todas as coisas pesadas desta semana me caíssem em cima com toda a força que conseguiam ter. Por dez minutos desisti, deixei-me ir ao fundo. E depois decidi que já chega.

O dia de hoje não é em nada diferente do dia de ontem: continuo com a corda ao pescoço, a minha família continua com problemas bastante graves, a situação do país continua péssima. Ou está ainda pior, porque hoje as pessoas já não perguntam “porquê?” e começam a pensar no “para quê?”. E isto é mau. Porque o medo vai voltar: o medo de ser assaltado por causa de 5 euros, o medo de ser agredido, o medo de tudo.

Eu continuo a ter medo, continuo a ter receio, continuo a ter vontade de sair daqui e me enfiar no canto escuro da minha alma. Mas decidi que está na hora de esbracejar e de voltar acima.

Nem que seja para bater com a cabeça em algum barco 😛

sentimentos

.  “Não devemos deixar de demonstrar os nossos Sentimentos Hoje…porque amanhã pode ser tarde demais…”

li esta frase num fórum que sigo há mais de cinco anos, e no qual não tenho participado por falta de disponibilidade (não tenho tempo. ponto. continuo a participar via msn ou facebook, mas não tenho tempo para ler os tópicos com a atenção que eles merecem). um fórum que é uma autêntica comunidade, onde as pessoas são acolhidas, bem tratadas, apoiadas, e onde – se a vida assim o deixar – passam a acolher, a bem tratar, a apoiar.

não sei em que curva da estrada a humanidade decidiu que os sentimentos eram exposição, que manifestar o que vai na alma é sinal de fragilidade. contextualizaram excessivamente expressões como “amo-te”, frases simples como “gosto de ti”. e passou-se a enviar abraços em vez de beijos, e a acenar em vez de distribuir abraços.

isto custa. custa-me. e é por isso que admiro (e imito) as crianças quando dizem “gosto de ti”, quer seja a amigos quer a pais e mães, quer a coisas ou criaturas pequenas ou grandes.

porque naquele “gosto de ti” conseguem incluir o afecto, a ternura, o carinho que se experimenta pelas criaturas por quem sentem empatia. porque gostar nem sempre é amar. porque, às vezes, gostar é apenas isso.

a minha mãe

.  a minha mãe tinha 10 anos quando começou a trabalhar.

no dia em que passou no exame da 4ª classe, com distinção e louvor, tinha à espera dela – à porta da escola – um carro quase novo. não era nenhuma prenda por ter terminado os estudos, nem mesmo o meio de trasporte para o jantar de comemoração do sucesso minutos antes obtido.

no dia em que terminou a 4ª classe, a minha mãe partiu no carro que a levaria à casa onde, com 10 anos, começou a trabalhar como gente grande. 10 anos. responsável por uma casa que não era a dela, cozinhando para uma família que não era a sua, chorando de saudades, à noite, numa cama que não conhecia.

quando a minha mãe fez dez anos e terminou a 4ª classe, a minha avó abraçou-se a ela a chorar. de tristeza. de saudades. porque a filha tinha dez anos e tinha passado no exame da 4ª classe e, agora, ia para longe, ganhar o dinheiro que em casa não havia.

dez anos.

deve ser por isso que entendo a revolta dos jovens de agora mas não consigo aceitar quando dizem que vivem pior que os pais. porque a minha mãe terminou a escola aos 10 anos, e eu estudei até aos 21. porque ela foi trabalhar a sério quando terminou a 4ª classe, e eu só soube o que era um horário de trabalho quando fiz 16 anos. porque ela era uma criança quando teve de sair de casa, e eu só saí aos 25.

o futuro é incerto, está difícil, há contas para pagar e pouco dinheiro para o fazer. aceito que me digam – porque eu também digo – que devemos estar preocupados com os tempos que aí vêm.

mas não aceito que me digam que estamos pior que os nossos pais.

porque a minha mãe começou a trabalhar com dez anos.

para quando um “plano nacional de escrita”?

.  quando eu era (mais) pequena havia um ritual que se repetia a cada quinze dias: a deslocação à biblioteca, acompanhada pelo meu pai e pelos meus irmãos. o facto de a senhora da biblioteca – figura que na altura era para mim uma espécie de S. Pedro – já nos conhecer pelo nome facilitava a coisa e permitia-nos, ocasionalmente, levar quatro livros no lugar dos três da praxe.

eram tardes mágicas: entrar, entregar os livros já lidos, passar para a sala e sentar na alcatifa, diante de umas estantes imensas que estavam cheias de histórias que ainda não conhecia. o tirar o livro, ver o número de páginas (as viagens ainda eram longas pelo que livros com menos de 50 folhas eram eliminados à partida), ler um bocado, ver se o texto estava escrito na 1ª pessoa (corte!!!), enfim…

e, depois de ouvir o carimbo a validar o empréstimo, regressar a casa com os 3 volumes, escolher qual ler primeiro, forrar a capa com papel branco e escolher o marcador para assinalar a página em que a leitura ficava em suspenso até à noite seguinte. lá em casa nunca – nunca – se dobrou o canto de um livro. aliás, é coisa que ainda hoje me arrepia.

depois era o consolo: ler até os olhos quase rebentarem. se acaso a minha mãe passava antes e desligava a luz, era esperar até ouvir a porta do quatro fechar e acender o candeeiro, debaixo dos cobertores, para ler mais um bocado. sim, porque um capítulo – como uma conversa – nunca se deve deixar a meio.

esta coisa de ler tornou bastante fácil a “coisa de escrever”.

não sei – nem me interessa – se escrevo bem ou mal. escrevo porque gosto, como outras pessoas gostam de cantar, de dançar, de subir a postes ou de dormir na praia. sabe-me bem, e isso basta-me. penso, até, que deveria ser uma arte – a da escrita – a incentivar nas escolas, tal como se incentiva a leitura. porque nos devia ser incutida, desde pequenos, a “obrigação moral” de deixar, para quem quiser conhecer, um bocadinho de nós feito palavras. sejam elas histórias, contos, relatos reais, seja o que for. o ser humano é tão complexo, a alma é tão grandiosa, o sentimento é tão poderoso, que não deveria terminar quando nós terminamos.

todos devíamos ter a obrigação de, à semelhança das “histórias de vida” das Novas Oportunidades, deixar um relato escrito daquilo que somos, daquilo que gostamos, daquilo em que pensamos. do nosso “porquê” das coisas, das nossas emoções, dos nossos arrepios.

Fernando Pessoa escreveu que : “Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia, não há nada mais simples. Tem só duas datas – a da minha nascença e a da minha morte. Entre uma e outra todos os dias são meus.”

Eu acrescentaria: e o que é meu, deixo-o para todos vós.

sobre planos e essas coisas

.  como boa Gémeos que sou, passo mais tempo a fazer planos que a executá-los. já quando era mais nova e tinha de fazer limpezas na casa dos meus pais investia cerca de meia hora a fazer uma lista das divisões que teria de limpar (como se essas mudassem de semana a semana) e, numa outra coluna, o tempo que – segundo os meus cálculos – demoraria a completar a tarefa. era divertido, e terminava (sempre) de forma abrupta com um berro da minha mãe: “Mónica Sofia sai do quarto e começa a fazer alguma coisa!” – mãe é sempre mãe, e ter dois nomes próprios é sempre uma desvantagem para qualquer filho.

mas adiante…

este gosto pela planificação (já lhe chamaram muita coisa mas eu prefiro continuar a chamar “gosto”) levou-me a ser muito boa a organizar tarefas, a desenhar backup-plans e a fazer cronogramas detalhados – o facto de nunca os cumprir não é problemático: não se pode ser bom em tudo, e o meu talento fica-se pelo plano e não pela execução.

assim sendo, passei o dia de ontem a definir as tarefas e os objectivos (alcançáveis) para este ano de 2010. como não acredito nos desejos nem nas típicas resoluções de ano novo (deixar de fumar, deixar de beber, deixar de… gastar muita água) fico-me pelas coisas concretas, realizáveis, mensuráveis. já tenho uma lista que, agora terei de passar para uma agenda. e depois para o iCal. e depois sincronizar com o telefone. é um gosto, este da organização. sim.  não são muitos, e duram só até abril, mas já dão para encher o olho 😉

por isso defendo que fazer planos faz-nos (ou pelo menos a mim) bem. são como os paredões nas praias, que as limitam e tornam o mar menos assustador. a água é a mesma, mas está dividida em pedacinhos mais pequenos. e, se ficarmos sem força, sempre nos podemos agarrar às pedras 🙂

.

.

(e para que não se diga que sou obcecada com estas coisas da planificação… na última grande viagem que fizemos quando ainda éramos ricos, eu e o meu comparsa fomos passear até Itália, de carro e sem nada bem definido, o que nos levou a coisas como ir até ao norte de Espanha para depois atravessarmos o centro de França e entrarmos em Itália por Turin. o objectivo era passear em Itália, e foi nisso que concentrei os meus esforços: como chegar lá era, para mim, totally secundário.

ainda sem GPS (tecnologia do demo, juntamente com os fornos micro-ondas  e as cassetes “de fita”), orientávamo-nos pelos mapas e a coisa fez-se. descobrimos pequenas vilas que nunca encontraríamos se fossemos direitos às cidades principais, passámos por “percursos pitorescos” que nos deram cabo das costas mas nos encheram a alma de verde e posso afirmar, sem sombra de dúvida, que foram as melhores férias da minha vida. só serão suplantadas quando eu for de novo rica e puder visitar a Grécia ou as ruínas de Machu Pichu)