. Se um dia me pudesse sentar contigo, por dois segundos que fossem – tirados de um tempo que, não sendo já teu nem meu, seria por fim o “nosso” – dir-te-ia que nem tudo se mede e classifica, e que não é preciso uma tabela ou um dicionário para encontrar significado para tudo o que a vida encerra.
(a vida. um presente. o tempo presente. dois segundos que qualquer coisa que ainda não está resolvida e que, sem ser o que já foi nem o que ainda poderá ser, nos define durante um espaço e um tempo que não se voltam a repetir)
E se me pudesse sentar contigo nesse momento que seria só nosso, repetir-te-ia vezes sem conta que “o essencial é invisível aos olhos” e que, para saberes e te saberes, terás de ir mais fundo e olhar com mais atenção para tudo o que te rodeia e que – de forma mais ou menos acertada – te define e te contextualiza.
E dir-te-ia que a vida é mais do que esse conjunto de listas e categorias que adoras. Que nem tudo o que conheces e o que virás a conhecer pode ser guardado numa dessas caixas ou gavetas que carregas contigo e que te ocupam espaço, e que há coisas que, não tendo razão de ser, simplesmente são.
Deixa as listas. O que tens feito e o que ainda tens por fazer. Deixa os planos, e os esquemas, e as normas e as condutas. Deixa. Deixa-te.
Aproveita estes dois segundos de presente, tão únicos e irrepetíveis que – ainda que tu queiras e eu queira – nunca mais voltarão a acontecer. São o meu presente para ti.
Dois segundos que te entrego e em que desapareço, para que possas ganhar espaço e tomar, como teu, o tempo e o espaço em que estás agora. Para que respires. Para que te (in)definas.
Para que sejas capaz de olhar mais fundo e mais longe do que aquilo a que te habituaste, e percebas, de uma vez por todas, que a vida à superfície encerra muito mais do que aquilo que os teus olhos conseguem ver.
[“A vida à superfície” foi escrito a 28 de Julho de 2012. É “O” texto. Um princípio e fim de tudo. Um mantra. Um texto-mensagem que escrevi para uma pessoa em particular mas que gostava que tivesse sido escrito para mim. “A vida à superfície” foi publicado originalmente no Obvious em Julho de 2012]