Um tempo para ter tempo


Há um tempo para tudo. Um tempo para amar, um tempo para chorar,
um tempo para rir e um tempo para abraçar.
Há um tempo para ser forte, e um tempo para se deixar levar.
Um tempo para insistir, outro para desistir.

Há um tempo para parar e olhar o caminho,
e outro para pegar na mochila e fazer estrada.
Há um tempo para sonhar. E fazer planos. E pensar no que ainda está para vir.
Há um tempo para encher de mimos.
Um tempo para dizer que “te amo”,
outro para dizer “te odeio”,
outro para “não posso mais viver sem ti”.
Um tempo para enrolar, um tempo para sorrir, um tempo para beijar.

Há um tempo que se faz de lágrimas, que se desenha de dor.
Um tempo em que choramos por dentro,
enquanto não somos capazes de sorrir por fora.
Um tempo só nosso. Fundo. Escuro. Negro. Vazio.

Há um tempo para sair. O tempo em que a respiração pára e o olhar cresce.
O tempo do medo, do anseio, do desejo.
O tempo do “é agora”, o tempo do “já está”.

Há o tempo de ficar quieto. De ouvir e escutar.
De baixar os olhos e respirar baixinho.
De deixar sair o ar sem um ruído.

Há um tempo para tudo. Tempo para lutar e um tempo para descansar.
Tempo para escrever e tempo para ler.
Tempo para estender a mão.
Tempo para entregar o corpo.
Tempo para desvendar a alma.

E tempo para ser feliz.



[Publicado originalmente na Obvious em Abril de 2014. Quando ainda tinha tempo para ter tempo :)]


Numa noite igual às outras


. Numa noite igual a tantas outras levanta-se baixinho,
afastando sem um ruído o sono que ainda não dormiu.
Percorre a casa em silêncio, de olhos fechados,
sorvendo de cada porta entreaberta
o respirar leve dos sonhos de quem já descansa.

Precisa de si. Precisa de ser.

Recolhe em gestos lentos um livro aberto e embrulha-se,
no tempo de um sopro,
na manta que cheira a quem ama.

Respira. Inspira.
Sonha. Sonha-se.

E por breves instantes, tão breves que quase não são,
passa a mão pelo rosto numa memória antiga que a leva ao tempo
em que o eu era tudo, e o nós uma ideia em que ainda não pensava.

Do quarto chegam os murmúrios que o silêncio torna maiores.
O momento passou.
Num tempo mudo de sons,
atravessa os metros que vão d’ela-eu a ela-nós e procura, com um pé,
o calor quente do corpo que dorme tranquilo.

Sorri.
E adormece em paz.


Despertar


. Gosta de acordar cedo. De vaguear pela casa, em silêncio, enquanto os outros dormem, num sossego que até pode não ser paz…
mas que lhe deixa, na alma e no corpo, a sensação que ela e o mundo são um só.

Acorda cedo, um pouco mais que os outros.
Sem empurrões, sem obrigações. Porque gosta e quer, porque sabe bem.

Recebe da casa os primeiros sons e cheiros, aqueles que se criam e guardam no escuro da noite, e que só o primeiro – aquele que decide que o quer ser – tem o direito a receber.
Um sussurro de pés descalços, sombra escondida nas sombras, cheiro misturado no cheiro.
Um “eu” invisível, ainda que por um instante.

O café cheira a grão e água, o pão a trigo e ao trabalho daqueles que acordaram (muito) antes de si: sabe a sono que foi pequeno, às mãos que o amassaram e ao fermento que o fez crescer.

A casa ainda dorme o sono que os outros dormem.

Está frio.
Aquece um pé no outro, dedos contra dedos;
fecha os olhos e respira o fumo feito de cheiro escuro que o café lhe oferece como um segredo.
Ela, o mundo, pouco ou nada mais.
Uma comunhão única embora diária.
Um momento só, parado num espaço e num tempo que lhe pertence.

Aos poucos, a casa acorda.

Arruma a chávena, alisa a roupa, prepara a mesa para os outros seres cujos pés – dali a pouco – correrão no mesmo chão que por momentos foi só seu.
Nos dois segundos que separam a mulher-só da esposa, da filha, da mãe, atira o olhar pela janela e recebe, como uma oferenda, aquele instante em que o mundo ainda lhe pertence.

O dia começa.
Mais uma vez.
E – apesar de gostar do cheiro do silêncio e do som da casa que ainda dorme – sorri.
E isso é bom.

bem aventurados os mansos

Sou pelo bem comum.
Pelo dar um passo atrás para que todos possam dar um passo em frente.
Sou pelo ‘se faz favor’, pelo ‘com licença’ e pelo ‘obrigado’.
Num mundo que se atropela, que grita, que vive ao segundo, que reage e que partilha, sou pelo silêncio.
Num universo em fast-forward, sou pelo pause.

[borbulho . agito-me . fervo . inspiro . acalmo . prossigo]

Gelo fino protegendo o mundo da corrente da água, a mansidão faz-se em camadas.
Ao longo do tempo. Ao longo da vida.
É uma maratona, não um sprint.
É uma opção de vida, não uma fraqueza. É caráter, não ausência dele.

Bem Aventurados os mansos, porque um dia herdarão a terra.
É que até lá, os outros – os agitados, os sôfregos, os belicosos…
… já terão perecido todos.


[“Bem aventurados os mansos” é um grito (manso) contra os sinais exteriores de vontade. Contra o imperativo do barulho, do ruído, da proactividade estridente. É um manifesto, uma entrada no “press-pause”. “Bem aventurados os mansos” foi publicado originalmente na ©Obvious em Dezembro de 2012. Cinco anos depois… continuo fã do pause… 😉 ]


A vida à superfície


. Se um dia me pudesse sentar contigo, por dois segundos que fossem – tirados de um tempo que, não sendo já teu nem meu, seria por fim o “nosso” – dir-te-ia que nem tudo se mede e classifica, e que não é preciso uma tabela ou um dicionário para encontrar significado para tudo o que a vida encerra.

(a vida. um presente. o tempo presente. dois segundos que qualquer coisa que ainda não está resolvida e que, sem ser o que já foi nem o que ainda poderá ser, nos define durante um espaço e um tempo que não se voltam a repetir)

E se me pudesse sentar contigo nesse momento que seria só nosso, repetir-te-ia vezes sem conta que “o essencial é invisível aos olhos” e que, para saberes e te saberes, terás de ir mais fundo e olhar com mais atenção para tudo o que te rodeia e que – de forma mais ou menos acertada – te define e te contextualiza.

E dir-te-ia que a vida é mais do que esse conjunto de listas e categorias que adoras. Que nem tudo o que conheces e o que virás a conhecer pode ser guardado numa dessas caixas ou gavetas que carregas contigo e que te ocupam espaço, e que há coisas que, não tendo razão de ser, simplesmente são.

Deixa as listas. O que tens feito e o que ainda tens por fazer. Deixa os planos, e os esquemas, e as normas e as condutas. Deixa. Deixa-te.

Aproveita estes dois segundos de presente, tão únicos e irrepetíveis que – ainda que tu queiras e eu queira – nunca mais voltarão a acontecer. São o meu presente para ti.
Dois segundos que te entrego e em que desapareço, para que possas ganhar espaço e tomar, como teu, o tempo e o espaço em que estás agora. Para que respires. Para que te (in)definas.
Para que sejas capaz de olhar mais fundo e mais longe do que aquilo a que te habituaste, e percebas, de uma vez por todas, que a vida à superfície encerra muito mais do que aquilo que os teus olhos conseguem ver.


[“A vida à superfície” foi escrito a 28 de Julho de 2012. É “O” texto. Um princípio e fim de tudo. Um mantra. Um texto-mensagem que escrevi para uma pessoa em particular mas que gostava que tivesse sido escrito para mim.  “A vida à superfície” foi publicado originalmente no Obvious em Julho de 2012]