. Gosta de acordar cedo. De vaguear pela casa, em silêncio, enquanto os outros dormem, num sossego que até pode não ser paz…
mas que lhe deixa, na alma e no corpo, a sensação que ela e o mundo são um só.
Acorda cedo, um pouco mais que os outros.
Sem empurrões, sem obrigações. Porque gosta e quer, porque sabe bem.
Recebe da casa os primeiros sons e cheiros, aqueles que se criam e guardam no escuro da noite, e que só o primeiro – aquele que decide que o quer ser – tem o direito a receber.
Um sussurro de pés descalços, sombra escondida nas sombras, cheiro misturado no cheiro.
Um “eu” invisível, ainda que por um instante.
O café cheira a grão e água, o pão a trigo e ao trabalho daqueles que acordaram (muito) antes de si: sabe a sono que foi pequeno, às mãos que o amassaram e ao fermento que o fez crescer.
A casa ainda dorme o sono que os outros dormem.
Está frio.
Aquece um pé no outro, dedos contra dedos;
fecha os olhos e respira o fumo feito de cheiro escuro que o café lhe oferece como um segredo.
Ela, o mundo, pouco ou nada mais.
Uma comunhão única embora diária.
Um momento só, parado num espaço e num tempo que lhe pertence.
Aos poucos, a casa acorda.
Arruma a chávena, alisa a roupa, prepara a mesa para os outros seres cujos pés – dali a pouco – correrão no mesmo chão que por momentos foi só seu.
Nos dois segundos que separam a mulher-só da esposa, da filha, da mãe, atira o olhar pela janela e recebe, como uma oferenda, aquele instante em que o mundo ainda lhe pertence.
O dia começa.
Mais uma vez.
E – apesar de gostar do cheiro do silêncio e do som da casa que ainda dorme – sorri.
E isso é bom.