. Numa noite igual a tantas outras levanta-se baixinho,
afastando sem um ruído o sono que ainda não dormiu.
Percorre a casa em silêncio, de olhos fechados,
sorvendo de cada porta entreaberta
o respirar leve dos sonhos de quem já descansa.
Precisa de si. Precisa de ser.
Recolhe em gestos lentos um livro aberto e embrulha-se,
no tempo de um sopro,
na manta que cheira a quem ama.
Respira. Inspira.
Sonha. Sonha-se.
E por breves instantes, tão breves que quase não são,
passa a mão pelo rosto numa memória antiga que a leva ao tempo
em que o eu era tudo, e o nós uma ideia em que ainda não pensava.
Do quarto chegam os murmúrios que o silêncio torna maiores.
O momento passou.
Num tempo mudo de sons,
atravessa os metros que vão d’ela-eu a ela-nós e procura, com um pé,
o calor quente do corpo que dorme tranquilo.
Sorri.
E adormece em paz.