dois anos de Margarida

. Dois anos de Margarida. Dois anos de um amor profundo, de um cheiro bom que não pensava voltar a experimentar.

Dois anos de encantamento constante, surpresa a cada minuto, dois anos cheios de vontade e de um charme a que não consigo – nem quero – resistir.

Se a Mariana é as minhas ansiedades – e estão todas lá, todas – a Margarida é a minha segurança. O meu chão firme. O meu lugar certo.

Uma é perguntas, outra é respostas.

Dois anos de Margarida, dois anos de sol, dois anos de coisa boa e cheia de luz.

hoje

. Hoje é quinta, dia 6. Chove, está frio, e eu estou cansada.
Sinto falta do meu amigo, de conversar com ele aos sábados de manhã.

Sinto falta da sua orientação dada sem que fosse pedida (e que eu tantas vezes, e bem, não aceitava), da forma como me dizia que “se fosse eu…”.

Sinto muito a falta dele. Acredito na vida para além da morte – ainda que de uma forma ligeiramente diferente daquela que me ensinaram em pequena – e por isso creio que, de uma forma ou de outra, ele continua.

Mas o que eu sinto falta é dele. Dele como era, dele. Não daquilo em que se terá tornado, não daquilo que poderá ser agora. Sinto falta dele, como ele era, mandão, um bocadinho espaçoso, sempre com algo para dizer.

Hoje é quinta, dia 6.
E eu estou triste.

 

uns e outros dias

. Há dias em que me canso de pensar que este ciclo ainda não terminou, e que a vida vai continuar apertada.

Há dias em que me canso de fazer contas, de olhar para cupões, de ver se o chocolate para o leite é mais barato no Lidl ou com os 10% de desconto do Continente.

Há dias em que me canso de acordar mais cedo para fazer o almoço para o marido levar, ou me canso de guardar as sobras do jantar para depois aquecer na manhã seguinte. Há dias em que me canso de ter de cozinhar e não poder ir comer fora, nem que fosse um hambúrguer.

Há dias em que me canso de olhar os catálogos, olhar mesmo, sabendo que não irei comprar nada. Há dias em que me canso de pegar em roupa que já foi para dar e voltar a olhar para ela como se fosse nova.

Há dias em que me canso destes anos 80, que voltaram 30 anos depois.

Se calhar, ando a precisar de descansar.

Meu pé de laranja-nêspera


– Mãe, mãe! Anda ver a minha amiga árvore!”

Quando a Mariana nasceu, plantámos uma oliveira no jardim.
Uma árvore pequena: um tronco fino, meia dúzia e mais três folhas. Imagem daquela pequena vida que nascera.
Símbolo da paz que ela – a filha – nos trouxe, legado para um futuro que esperamos e desejamos belo.
Rodeada de árvores plantadas antes do nosso tempo, cercada por outras que – por nós plantadas – trouxeram histórias por outros vividas e fazem parte da história que agora é a nossa, cresce ao seu ritmo, acompanhando nesse crescer lento e firme a vida daquela cuja vida celebra.

[sinto que se cada planta e cada árvore deste jardim falasse – ou se as soubéssemos ouvir – teria uma história única para contar. nas raízes que se entranham na terra e que dela tiram o sustento, guardam a memória de quem esteve e já partiu. numa vida que é mais longa que a nossa vida, as árvores permanecem.
chorarão – as árvores – ao perceber que ficaram sós?]

O meu jardim – onde a oliveira e outras árvores crescem ao ritmo dos anos – é o reflexo do amor daqueles que o trataram. Dos que alisaram a terra, dos que se curvaram para plantar cada pé que hoje cresce, dos que podaram, dos que amaram. Sinal vivo e verde de vidas que fazem parte da nossa.

Há dois anos, um dos que amava as árvores e as tratava como se fossem parte de si partiu, deixando-nos e deixando-as assim, num repente, sem aviso.
Num momento estava. No outro, não.
E as árvores que amava e que o amavam – certezas do coração – choraram e não deram fruto. Fecharam-se em si, despidas, tristes da dor que não podiam gritar.

Quando a Mariana nasceu, plantámos uma oliveira no jardim.
Mas essa árvore – e é aqui que as coisas se misturam e o coração se acelera – não é aquela a quem chama amiga.
A sua – a sua – é a nespereira que o avô plantou. A árvore que nunca (nem antes nem depois) deu fruto. A árvore que – antes e depois – esteve quase a ser cortada.

Nas voltas que a vida e as almas dão, aquela árvore – folhas feias, tronco tosco – ganhou estatuto de amiga. É perto dela que brinca, é a ela que conta segredos e distribui afagos. Dá-lhe abraços; conta-lhe coisas.

E, por uns instantes – que se repetem de cada vez que a vejo sentada debaixo da sua sombra – gosto de pensar que as árvores têm alma, feita da sua vida e da vida daqueles que viveram junto de si e as amaram como parte da própria vida.

Aquela árvore poderá nunca dar fruto. Poderá nunca dar flor.
Mas nunca – nunca – será cortada.


[há textos muito difíceis de escrever. textos que doem a cada letra, que choram em cada palavra. o avô das minhas filhas morreu há quatro anos, num Novembro mais triste que os outros. era o avô da Mariana, o avô dos chupa-chupas e dos oreos, o avô do trator. a saudade que deixou não se desvanece – só a dor ficou mais dormente, mais descansada, levantando-se apenas quando pensamos nela… como agora. Há um tempo antes e um tempo depois desta morte: os textos deixaram de fluir, as ideias deixaram de ter significado, o amor passou a ficar tingido de dor. sinto falta do meu amigo. sinto-lhe a falta, e sinto a falta que ele nos faz. todos os dias. “O meu pé de laranja nêspera” foi publicado originalmente na Obvious, em Julho de 2014]