sobre a amizade


.  Sabes que alguém é teu amigo quando, deixando-te o espaço e o tempo que precisas para te encontrares, te vai mostrando em pedaços de carinho – que podem ser grandes ou pequenos – que está lá, presente, perto enquanto longe, para te dar – quando quiseres – o abraço que te faz falta.
E sabes que alguém é teu amigo quando, não se intrometendo nem forçando nem dizendo a toda a hora que “o pior já passou”, te diz – mesmo sem palavras – que a tua dor é a sua dor, e que as tuas lágrimas são as suas lágrimas, e que mesmo não podendo saber aquilo que sentes o peso que sente no seu peito é o mesmo peso que tu sentes no teu.

Sabes que alguém é teu amigo quando te respeita. Quando não te força a avançar. Quando não minimiza a dor que sentes, forrando-a com palavras cheias de nada. Sabes que alguém é teu amigo quando não te força a rir, mas fica feliz quando vê que já consegues não chorar.
Sabes que alguém é teu amigo quando, sem saber bem o que te dizer, diz apenas que “o amor vale sempre a pena”. Ainda que doa, ainda que esmague, ainda que te tenha deixado no peito uma coisa que é felicidade e saudade daquilo que foi e já não é.

E sabes que alguém é teu amigo quando sabes que – ainda que sintas que não tens jeito com as palavras e te pareça que não consegues pôr para fora tudo aquilo que sentes – ele vai entender exatamente o que queres dizer, mesmo que não sejas capaz de dizer uma única palavra.

Porque um amigo é assim. Leva consigo e guarda em si o pedaço de alma que lhe demos emprestado, para nos devolver quando a vida – como ela é – nos eleva ou nos sacode sem aviso.

São amigos.
E isso basta.


[para a Cátia. que me ajudou a encontrar o caminho. “sobre a amizade” foi publicado originalmente na Obvious, em Março de 2012]


obrigada

.  quando era pequena colaborava no jornal da paróquia com umas crónicas meio histórias meio sentimento. seguiam, invariavelmente, uma linha editorial um pouco moralista ou catequética que devia despertar, nos poucos leitores que as seguiam, o desejo de abanar a cabeça e dizer “enfim”. eram chatas, reconheço agora, mas ninguém nasce perfeito e a escrita – como qualquer arte – requer tanto de entusiasmo como de amadurecimento.

lembro-me como se fosse ontem do dia em que um amigo me confessou que as lia, todos os meses. e que por uma ou outra vez aquilo que eu escrevia fazia-o pensar e decidir coisas que só dele dependiam. lembro-me, como se fosse ontem, de ter corado até aos cotovelos com a ideia de que aquilo que eu escrevia – mais por obrigação que por devoção – fazia sentido para alguém. devo ter sentido, na altura, o choque que sente um autor publicado ao ver alguém a comprar um livro seu: as minhas palavras já não me pertencem, porque já fazem parte do “eu” de alguém.

a partir dessa altura – e até à altura em que simplesmente deixei de escrever naquele jornal – as minhas crónicas passaram a ter outro sentido. como os prisioneiros que, nos filmes, trocam mensagens dentro de livros ou bolos, os meus textos tinham mensagens escondidas, detalhes que lhe permitiam – a ele – saber sobre o que falava e sobre o que escrevia.

quando descobri este mundo dos blogs recuperei, como por milagre, aquele gosto pela escrita de que já sentia saudades. como antes gostava de ver a caneta a desenhar letras no papel, gosto agora de ver os caracteres a surgirem no branco, um a um, até formarem palavras, e frases, e ideias.

há, no entanto, diferenças: raramente escrevo posts com um destinatário em particular. aquilo que escrevo escrevo porque gosto, porque preciso, porque me sabe bem. esta “caixa” é como um canto da minha casa, na esquina da janela com o chão, onde me posso sentar e encostar, aqueles cantos que não trocamos por sofá nenhum.

este post é, contudo, diferente. porque é dedicado a quem o fez surgir. se não o texto – que como quase tudo o que escrevo, só faz sentido quando for sentido – pelo menos o título.

é que há coisas – como a confiança – que são preciosas. e esse é sempre um bom motivo para escrever.

Até breve

_ Foi ontem, numa manhã cheia de sol, que nos despedimos da Mónica.

Dizer que a Mónica era especial é dizer pouco. Conheci-a quando orientava a catequese juvenil, há já alguns anos, e foi impossível deixar de ficar impressionada  com aquela morenita cheia de vida e boa disposição. Tinha sempre tempo para tudo: para estudar, para ser enfermeira, para dar catequese, para orientar os grupos de jovens, para escrever para o Jornal da Paróquia. Sempre sorridente, sempre bem disposta, sempre activa.

A igreja de S. Tiago estava cheia com as pessoas que a conheciam e que lhe queriam bem. O coro, feito com os amigos e os jovens, ofereceu-lhe uma eucaristia cheia com os cânticos que ela tanto gostava: vivos, animados, alegres.

A passagem da Mónica pela nossa vida vai deixar saudades. Para quem acredita que as coisas não terminam aqui – como disse o Padre Vasco – não é um “adeus” mas apenas um “até breve”. Cheio de carinho, de amizade, de saudade.

Até breve, Mónica.

o principezinho


. é um dos livros que mais gosto de ler, e que me tem de certa forma acompanhado ao longo de quase 20 anos. ofereceram-no à minha irmã (que, bem me recordo, protestou e amuou por ter, com pouco mais de 8 anos, recebido um livro infantil…) mas quem o leu fui eu. creio até que fui eu a única pessoa que o li, lá em casa.

e li-o mais que uma vez: li-o com 12 anos, li-o anos mais tarde, li-o aos 20, aos 20 e muitos, e li-o há dias numa livraria, quando andava à procura de livros para oferecer no natal. não o comprei, porque gosto desta espécie de romance que tenho com ele: gosto de o encontrar, seja na prateleira de uma livraria, biblioteca ou até de um hipermercado, de o abrir e ler aquilo que, naquele momento, ele tem para me ensinar.

é uma história que tem crescido comigo: uma vez li as aventuras de um rapaz que gosta de uma flor, outra li a história de alguém que se faz amar e que depois não assume a responsabilidade desse afecto, outra vez descobri que “as coisas têm que ser vistas com os olhos do coração”. da última vez, deve estar agora a fazer duas semanas, li a história de alguém que não entende como se podem cumprir ordens sem lógica, e alguém que não é capaz de, no dia-a-dia, tirar prazer e descobrir coisas novas naquilo que faz (falo do acendedor de candeeiros, que passa a vida a acender e a apagar um candeeiro, minuto sim minuto sim, porque o seu planeta roda cada vez mais depressa. o principezinho viu, naquele planeta, a oportunidade de ver 24 pôr-do-sol…)

também sorri ao ver como o outro habitante de um outro planeta se entretinha a contar as estrelas e a guardar o número (delas) num papel, numa gaveta, mas desta vez foi a história do acendedor de candeeiros que me fez pensar. essa e as palavras do principezinho, quando fala nos seus vulcões: têm três, creio, que limpa com regularidade. mesmo o que está extinto, porque “nunca se sabe quando poderá entrar em erupção”.

durante este ano, grande parte dele, tenho sido um acendedor de candeeiros que negligencia o vulcão que está extinto. tanto o negligenciei, acendendo e apagando apenas o candeeiro, que algumas vezes “eruptei” (palavra nova). saiu fumo, vapor, quase lava. explodi imensas vezes, este ano. como me disseram, andei a “soltar vapor pelos corredores”. talvez por, durante 32 anos, me ter ocupado em demasia em manter limpinhos os vulcões dos outros, e não ter prestado atenção ao meu…

claro que, com isso, descobri (e bem) aquilo que me faz explodir. não sei se pelo stress que foi este ano (o triângulo da minha vida – profissional, pessoal e familiar – foi tudo menos equilátero), se por ter decidido, finalmente, que esta era a hora de acordar… houve quem estranhasse, houve quem aprendesse. e agora há quem me respeite, o que sabe sempre bem.

neste final de ano – e embora não seja dada a balanços nem a resoluções de ano novo – se colocar tudo em cima da mesa (o que de bom e menos bom aconteceu), o painel é francamente positivo. estranho, tipo pintura abstracta, mas positivo. é uma questão de olhar para ele, para a “caixa com três buracos”, e conseguir ver lá dentro a ovelha que se pediu.

quem já leu “o principezinho” sabe do que estou a falar…

mais do mesmo

. prestes a enviar (mais) uma versão do meu projecto, reformulado por situações alheias à minha vontade – reformular um 18 é estranho, confesso – decidi colocar aqui a foto que marcou esta manhã de 3 de Setembro: a revisão final.

o monstro branco que se vê, meio desfocado, em primeiro plano, é a minha gata Reca II (filha de Reca I, herdeira de sabe-se lá o quê), que tem uma panca acentuada por roupa preta, trabalhos impressos e livros que não me pertencem…

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