Mariana

Ontem à noite:

“- mãe, quando eu for muito velhinha e morrer, e tu já tiveres morrido, eu consigo encontrar-te no céu?

– claro que sim, eu vou ter contigo

– e quando me encontrares, vais brincar comigo?

– sempre.”

Seis anos e meio de Mariana.

Tem dias em que me encanta.

Tem dias em que me assusta um pouco.

perguntas sem resposta

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– Gostas de mim?
– Sabes que sim.
– Porquê?

Ah, este nosso hábito de classificar, codificar e avaliar tudo em palavras. As coisas – objetos, sentimentos, criaturas – só existem quando uma designação lhes é dada, como se as coisas e os objetos e os sentimentos se resumissem e definissem pelas letras que compõem o seu nome.
Precisamos de explicação para tudo. Tudo tem de ter uma razão, um sentido, analisado com um método. Um “sim” não nos basta, e um “não” tem de ter um porquê. Aquilo que não conhecemos perturba-nos, aquilo que não sabemos como definir tira-nos o equilíbrio.
Precisamos de estabelecer uma relação entre isto e aquilo, saber onde tudo fica, para que o cérebro – que se habituou à lógica e à matemática e à razão que o coração desconhece – compreenda, perceba, classifique, para que assim tudo faça sentido.

E dizemos que é amizade ou mais que isso, que é amor ou menos um pouco, que é paixão mas não tão quente quanto. E isso cansa. E como acreditamos – pela experiência que achamos ter – que as palavras perdem o sentido quando as dizemos muitas vezes (experimentem dizer céu vezes sem conta, e perceberão o que quero dizer com isto), evitamos repeti-las e guardamos, para quando e quem merece, aquelas (palavras) que nos são caras.

Ou então codificamos. E o amor é filial, ou paternal, ou conjugal. E temos melhores amigos, e amigos de ocasião. E tentamos – nesta ânsia insana de designar e codificar tudo – criar escalas de valores para, num olhar mais ou menos demorado, sermos capazes de perceber onde nos encontramos. Onde colocamos o outro relativamente aos outros. Onde fica aquilo que sentimos e que, ainda não sendo amor, também já não é amizade.

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– Gostas de mim?
– Sim.

Desta vez não perguntei porquê. E assim fiquei feliz.

o que podemos aprender com os livros

. Há dias, no Facebook, um amigo (“amigo/amigo”, não “amigo/friend”) publicou o link para um post onde fala sobre um dos filmes mais bonitos e delicados que já vi: Malèna, de Giuseppe Tornatore. Como diz o João, e bem, há mais beleza no filme do que aquela que é evidente aos olhos: tem Monica Bellucci, sim, mas tem mais do que isso. Tem comunidade, tem sociedade, tem preconceito, tem ascensão e queda, tem vida – tem tudo. Um filme daqueles que nos marcam, e onde podemos aprender mais do que a simples história que ele conta.
Como acontece com tantas coisas na nossa vida.

Nas férias da Páscoa, entre limpezas e arquivos de coisas passadas, arrumei livros que já li e já não leio mas que, de uma forma ou de outra, fazem parte daquilo que me fez ser. E, numa consulta que não demorou mais do que um folhear de páginas – porque os livros que se conhecem são como parte de nós, e sabemos, em segundos, onde encontrar o que de nós é – encontrei frases e linhas que são, na verdade, mensagens maiores que as palavras que as compõem.

“- Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa? Minha ou dele?
– Era Vossa – respondeu firmemente o principezinho.
– Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar – prosseguiu o rei. – A autoridade baseia-se nisso”
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Muitas vezes somos nós o nosso próprio inimigo. Exigimos demasiado, projetamos em nós (todas) as forças que cobiçamos e admiramos nos outros, como se (todas) as forças dos outros se pudessem reunir, sem conflito nem dor, dentro de uma só pessoa.
Querer ser mais é a força impulsionadora para crescer. E admitir que o impossível existe é o princípio para se saber ser mais naquilo que se é.

“- Boromir dirá tudo quando chegar. Quando chegar, dizes! Eras amigo de Boromir?
Pela memória de Frodo passou, nítida, a recordação do ataque que Boromir lhe fizera, e por isso hesitou um momento. Os olhos de Faramir, que o fitavam, tornaram-se ainda mais duros.
– Boromir era um valoroso membro do nosso grupo – respondeu Frodo, por fim – Sim, eu era seu amigo, pela minha parte.”
J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis: As duas torres

Na vida, diferentes pessoas têm diferentes objectivos e diferentes caminhos a percorrer. Os sentimentos, quando os há, valem pelo valor que têm – muito, ou pouco, dependendo da força com que os alimentamos. As amizades, como os amores e as lealdades, não são mais verdadeiras só porque são mútuas, nem mais falsas porque só têm um sentido. São percursos, estradas, paths que nos levam de um ponto ao outro da nossa existência. E só isso basta para as tornar reais.

Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?
Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.
Outras vezes, penso: “Uma distração e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guizinhos se transformam em lágrimas!..

Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principezinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa…
Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Copo meio cheio, meio vazio, estrelas a rir ou a chorar, tudo depende não (só) do nosso ponto de vista mas da forma como vemos as coisas. Como e onde nos focamos. Aquilo a que damos importância. A mesma tarefa, o mesmo projeto, a mesma empreitada, podem ser grandes ou pequenas, alcançáveis ou impossíveis – tudo depende da forma como decidimos olhar para ela, da lente da alma que decidimos colocar à frente do coração.

“- Só me pôs nos Gryfindor – disse Harry numa voz débil – porque eu pedi para não ir para os Slytherin.
– Exacto – disse Dumbledore a sorrir – E isso torna-te muito diferente de Tom Riddle. São as tuas escolhas, Harry, mais do que as tuas capacidades, que mostram quem de facto és.”
J.K. Rowling, Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Dizem que todos nascemos iguais. Dizem que todos temos as mesmas oportunidades. Dizem que todos podemos escolher.
Todos somos tudo… a diferença está na forma como, sendo e podendo ser tudo, queremos ser grandes naquilo que nos faz ser únicos.

post politicamente incorrecto

.  Gosto da minha sogra.

A minha sogra é uma pessoa fantástica. Humilde, trabalhadora, generosa, daquelas pessoas que não esfrega na cara dos outros o que tem, mas que em cada dia mostra o que vale. A minha sogra, dentro da sabedoria que lhe deu a vida e para a qual a escola só contribuiu com seis anos de “ensino”, tem uma frase que vale ouro mas que demorei a compreender: “Estou farta desta merda”.

Só isto. Diz isto quando, no Verão, as notícias sobre os incêndios enchem e preenchem os noticiários de hora a hora. Diz isto quando o bolo, pela décima vez, teima em não crescer. Diz isto quando, à hora de jantar, as notícias repetem até à exaustão coisas sobre a austeridade, e o IVA, e os políticos que se enchem e o país que está mau. E, quando diz isto, di-lo com a consciência de que sim, que estamos mal. Que sim, que não vamos ficar melhor. Mas, simplesmente, está farta que lhe repitam isso.

Gosto da minha sogra e, sobretudo, admiro-a. Talvez pela sua capacidade de gerir, pela sua generosidade, pela maneira como levanta a cabeça sem medo de enfrentar as coisas más que estão para vir. Ou, talvez, porque também eu “estou farta desta merda”.