coisas simples

.  já sentia a falta de escutar música. de me deixar embrulhar nos sons, de sentir o ritmo percorrer a pele e misturar-se com o pulsar do sangue. em casa não é possível, uma vez que todos os meus sentidos estão ajustados à Mariana (é engraçado como, no meio do som da TV, dos monólogos “com” o GT e do som do ventilador, consigo ouvir os murmúrios ou gemidos da pequenina, duas divisões ao lado. a ligação wireless é mesmo boa 🙂 )

sabe bem ouvir música, senti-la crescer. ouvir de novo, perceber outro ritmo, uma nova base, é um exercício que me dá prazer e enche os sentidos. fechar os olhos por segundos. fingir que não existe mais nada. ou, quando se proporciona, encostar a mão às colunas e deixar que as vibrações dos graves percorram os dedos, braços e ombros, e se espalhem naquele espaço entre o pescoço e o crânio onde os sons fazem a festa.

esta é uma música que me faz sentir pequenina. insignificante perante a grandeza do som.

hoje está a ser um dia bom 🙂

hoje foi um dia bom :)

. há muitos anos – mais precisamente em 93 – trabalhei como monitora na colónia de férias da Torreira. para quem na altura tinha 18 anos os 50 contos que se ganhava em 15 dias de trabalho era uma fortuna. para quem na altura tinha 18 anos, estar responsável por um grupo de 12 meninas vindas de famílias desestruturadas era um desafio, uma angústia e uma fonte de grandes preocupações. mas também de grandes alegrias.

nunca me vou esquecer das férias que lá passei a trabalhar, a dar um pouco – e às vezes tudo – de mim àquelas crianças. da forma como lhes ensinei a usar os talheres, a brincar, a dar beijos e abraços. da forma como consegui, junto com as outras monitoras, fazer com que se esquecessem – pelo menos durante duas semanas – da vida mais escura e triste que tinham em casa.

hoje percebi que também não fui esquecida. há pouco, via facebook, uma daquelas meninas de olhos grandes pediu desculpa pela ousadia de me pedir “amizade” e perguntou se eu era a Mónica Aresta que tinha brincado com ela há tanto tempo atrás.

de um momento para o outro a minha tarde ficou cheia de sol, de luz, de saudades e de alegria.

e isto sabe tão bem… 🙂

sinto falta…

.  … de beber café. não de um, ou dos três que bebo por dia. mas de café, muito café, tanto café.

… de decidir que afinal não vou já para casa e vou antes ao cinema. ou que vou fazer um desvio pela beira-mar.

… dos hamburguers do MacDonalds. dos swirls que servem de almoço. de francesinhas. de fast-food, de farturas, de natas do céu, de algodão-doce. e de pipocas. daquelas que se colam aos dentes.

… de ler na cama (eu sei que há coisas mais interessantes para se fazer na cama, como dormir, mas eu gosto de ler na cama). um livro, com muitas letras e poucas figuras (mas lido na cama, antes de dormir. no sofá ou na casa-de-banho não vale)

… de sair para ver casacos, de passear no fórum. de ouvir música com os fones nos ouvidos. de ver séries, pelo menos uma série.

… de dormir. uma noite inteira. sem que um choro umas vezes mais umas vezes menos meigo me acorde. sem ter de preparar um biberão. sem ter de esperar que o leite arrefeça. sem ter de me levantar.

… de mim.

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tirando isto, não sinto falta de mais nada 🙂

sobre memórias

.  as nossas memórias também estão ligadas aos objectos que fazem – ou fizeram – parte da nossa vida. como objectos que são – esses que nos trazem memórias – são por nós considerados como secundários, frios, coisificados, até ao dia em que os deixamos de ter.

como o meu anel de curso, que os meus pais me ofereceram com tanto orgulho quanto esforço.

como o meu anel de noivado, oferecido pelo meu marido no dia em que, finalmente, acedeu a casar comigo.

como a minha aliança de casamento.

como o anel de noivado da minha mãe, uma jóia que eu usava com tanto orgulho quanto devoção.

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quando assaltaram a minha casa – umas semanas antes da Mariana ter nascido – não invadiram apenas o meu espaço. não me deixaram, apenas, com uma sensação de violação. não desfizeram, apenas, a ideia de invulnerabilidade que todos temos, em maior ou menor dose. não roubaram, apenas, ouro.

levaram com eles pedaços das memórias que fazem a minha vida.

e isso não lhes perdoo. e isso não esqueço.

e isso dói.

a diferença entre ser inteligente e ser esperta

.  há uma diferença entre ser inteligente e ser esperta.

independentemente dos diferentes tipos de inteligência (académica, emocional, etc etc etc), do meu ponto de vista todos partilham um atributo comum: são assentes na gestão, na reflexão, na consciência. têm a ver com organização, método, limpeza. a esperteza, pelo contrário, tem a ver com sobrevivência.

enquanto que a inteligência é um dom, a esperteza – seja ela saloia ou de primeira classe – é uma competência: podemos nascer sem ela mas, a qualquer altura da vida, podemos investir e trabalhar até ficar esperto. ficar, não ser. é-se inteligente, aprende-se a ser esperto.

os meus pais sempre trabalharam no sentido de desenvolver, em cada um dos filhos, o dom da inteligência (intelectual, emocional) com que cada um nasceu. deviam, pelo contrário, ter-nos ensinado a ser espertos.

os meus pais, quando eram crianças, eram pobres. a minha mãe, em particular, era muito pobre. aos dez anos teve de saír da escola para ir trabalhar (chamava-se “servir”) para casa de desconhecidos e, desta forma, poder ajudar a família. aos três filhos – eu, o meu irmão e irmã – ensinou sempre o valor do trabalho e do esforço, e crescemos com a consciência de que tínhamos o privilégio de estudar e crescer com coisas e experiências que ela nunca teve.

nunca recebemos – NUNCA – quaisquer recompensas ou incentivos por termos boas notas. sempre nos exigiu o cumprimento das tarefas domésticas e o respeito pela hora das refeições mesmo quando estávamos em época de exames ou provas. ensinou-nos o valor do tempo, da organização, do definir prioridades. ensinou-nos que não nos devemos vender por cargos, por posições, ensinou-nos a andar de cabeça levantada por não devermos nada a ninguém.

são valores importantes, que ficam. a nossa vida sempre se regeu pela inteligência, pelo respeito pelo outro, pela dignidade. ainda hoje somos incapazes de colocar um papel no chão, nem que seja preciso andar dez metros até achar um caixote do lixo. ainda hoje damos lugar a pessoas de idade, mesmo que elas não o peçam. ainda hoje pedimos “por favor”, dizemos “com licença” e “obrigada”.

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os meus pais sempre cultivaram, em nós, o dom da inteligência.

acho que, agora, está na altura de aprendermos a ser espertos.