raízes

.  todos nós temos raízes. eu tenho, pelo menos. todos temos um chão, um espaço, uma terra, que mais do que nos prender à vida nos dá a energia e a força que precisamos para aguentar, dia após dia, as coisas boas e menos boas que nos acontecem.

sei que há quem consiga viver sem raízes, mas eu não consigo. fiz casa numa terra que não é a minha, estou perto – muito perto – das pessoas que agora fazem parte da minha vida mas, por vezes, sinto que me falta alguma coisa. faltam-me aquelas pessoas que me conhecem antes de eu me conhecer, que sabem sobre mim coisas que eu não me lembro, que me recordam de gestos e gostos que eu não consigo recordar. pessoas que, pouco a pouco, vão desaparecendo no tempo e no espaço naquela que é ordem natural das coisas. pessoas que nos dizem que “quando eras pequenina gostavas tanto de dançar”, ou de cantar, ou de fazer outras coisas – não importa o que digam, são importantes pelas memórias que têm de nós e que nos ajudam, em cada pedacinho, a construir as páginas do diário da nossa vida.

a minha família é o meu chão, o meu espaço, a minha terra. é nela que tenho as minhas raízes e a minha alma, é a ela que vou buscar aquela força que não se consegue com vitaminas, ou descanso, ou café. é nela que me encosto, que me apoio ou que me escondo.

todos nós precisamos de raízes. eu preciso. e tenho muito orgulho nisso.

só damos valor às coisas quando pensamos que as podemos perder

.  quando eu era pequena diziam-me que nada se consegue sem esforço, ou que só quando lutamos por alguma coisa é que ela sabe bem.

não é, de todo, verdade. há coisas que quase nos caem no colo e que, nem por isso, têm o seu valor diminuído por terem sido alcançadas de forma mais ou menos fácil. são, simplesmente, acasos felizes – e tão felizes – que nos fazem acreditar que Deus existe, que o destino é uma coisa linda ou que nascemos, realmente, com o dito virado para a lua.

há também quem defenda que só damos valor às coisas quando as perdemos. sou forçada a concordar, uma vez que só me apercebi da importância que tinha para mim a aliança de casada e o anel de curso quando um jovem, de certeza para pagar a prestação ao banco ou para ajudar um necessitado, se lembrou de arrombar uma janela e fazer um tour pela minha casa sem a minha autorização. neste caso, vi como o “vão-se os anéis, fiquem-se os dedos” é uma máxima cheia de sabedoria e com certeza desenhada por alguém que já passou pelo mesmo. mas adiante…

respeito muito a sabedoria popular, pensando mesmo que os ditados e os provérbios se deviam ensinar na escola como se ensinam os nomes dos rios e dos reis: são parte da nossa cultura, na nossa história, da nossa alma enquanto povo e enquanto pessoas. seria uma espécie de “base” para a formação da consciência, um pacote a ser discutido, debatido, analisado. algo que não fôssemos obrigados a aceitar mas que nos fizesse pensar e descobrir os valores e as crenças que são dos outros, de outros, e que podemos querer tomar ou adaptar como nossos.

é por isso que quando me dizem que só damos valor às coisas quando as perdemos franzo um pouco a testa e observo que “só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. como quando percebemos que uma amizade que não cultivámos se perdeu ao longo dos anos. como quando vemos que não abraçámos os nossos pais todas as vezes que podíamos. como este verão, quando pensei que alguém que faz parte do meu passado e do meu presente poderia não estar no meu futuro.

hoje apanhei um susto, quando tentei aceder a esta caixa e a vi, por segundos, vazia. por momentos que pareceram uma eternidade vi uma parte dos meus pensamentos escritos, daquilo que me faz e me ajuda a ser “eu”, desaparecer no vazio das redes e das ondas e dos fios. e percebi que este blog não é apenas um conjunto de textos: é o registo de uma parte da minha pessoa, um espaço onde as letras e as palavras me ajudam a descrever aquilo que sou.

“só sabemos como as coisas são importantes quando pensamos que as podemos perder”. é… a partir de agora vou sempre fazer backup 🙂

para memória futura :)

.  No dia 21 de Julho de 1974 os nossos pais decidiram deixar de ser duas pessoas e passar a ser um casal. A partir desse dia formaram uma sociedade, com quotas iguais, que dura há 36 anos.

Mas 36 anos de casados significa muito mais do 36 anos de amor e casamento.

Significa que souberam ser capazes de fazer as pazes de cada vez que se zangaram. Significa que souberam respirar fundo. Que souberam negociar e chegar a acordo. Que souberam ver o que era importante e deixar, para outras conversas, aquilo que não interessava.

Significa que souberam gerir os bens imóveis e os móveis – os filhos.

Sabemos que fomos fáceis de criar – eu nunca amuei, o mano nunca deu noites sem dormir, a mana nunca se zangou 😛 – mas mesmo assim devemos ter dado algum trabalho. Durante grande parte destes 36 anos fomos uma bagagem às vezes um pouco difícil de arrumar.

.Agora, que já somos crescidos, são os nossos filhos que amuam, que não dormem, que se zangam. Estes pequenos milagres – nossos e por isso também vossos – são a melhor maneira de vos demonstrar que ser filho é bom. Que nos deram o melhor do mundo: pais que souberam e sabem ser pais, pais que sabem mostrar o que é o amor.

.Os nossos pais são o melhor exemplo daquilo que um dia poderemos ser. E é por isso que vos agradecemos, todos os dias.

desejos de ano novo


. este ano só pedi quatro. a minha sogra esqueceu-se de comprar passas, só havia uvas (das grandes) e isto de engolir bagos com mais de 1 cm de diâmetro pode dar azia. assim, escolhi 4 desejos (três para mim e um para a minha irmã), sem olhar à infindável lista recomedada por todos, e da qual nunca me consigo lembrar.

dois desses desejos estão (que é como quem diz…) nas minhas mãos. basta vontade e paciência(muuuuita) para que a coisa ande. é nesses que vou investir :P. isto porque aparentemente 2008 é adverso a nativos de gémeos, que encontrarão conflitos em tudo aquilo em que se meterem. como uma das principais razões desses problemas é o arejamento natural deste signo e a forte tendência para respoder à letra quando provocado (segundo um site que a minha colega fez questão de ler em voz alta), o melhor é fechar as janelas, visualizar o chakra que fica mais ou menos a meio do torax (não sei se lá existe algum, mas entre 7 localizações possíveis – creio – alguma há-de ser lá) e respirar fundo. depois disto, responder se tiver que ser.

tirando isto… ler mais, escrever mais ainda. a ver se pelo menos um dos desejos/resoluções se cumpre 🙂

quando os doidos saem à rua

. há uma passagem n’”O Pêndulo de Foucault” em que Belbo – uma das personagens – olha com um cepticismo divertido para uma problema em que se encontra envolvido porque o ridículo, o nonsense e a comicidade da situação são tais que anulam qualquer outro tipo de emoção.

hoje senti isso. hoje os loucos sairam à rua, instalaram-se à minha volta e decidiram que eu ia sofrer por todas as asneiras que fiz nesta e nas outras encarnações. juro que por vezes não sei o que se passa com o mundo, com as pessoas, se realmente vale a pena pensar antes de falar ou se calar alguém que berra com um berro ainda maior não será a melhor solução.

há muitos idiotas que passam por nós ao longo dos dias, e há dias em que muitos idiotas passam por nós. nestas alturas a única saída que nos resta, para não perdermos a sanidade, é fazer como o Belbo e cruzar os braços, olhando com interesse para o nó que paira por cima da nossa cabeça.

só assim nos mantemos sãos. ou isso ou mandamos um murro no jogador adversário.