200.9

.  quando a Mariana entrou nas nossas vidas sob a forma de um número, a primeira coisa que fiz – depois de respirar, me acalmar e quase chorar – foi prometer, baixinho, que nunca iria perder a paciência com ela. que não deixaria que as coisas e os problemas do dia-a-dia, e que não faziam parte do mundinho dela nem por ela seriam controláveis, mexessem ou interferissem na forma como nos relacionaríamos. que sempre teria tempo para ela, mesmo que isso implicasse não ter tempo para mim. e que, acima de tudo, a ia amar independentemente do comprimento dos dias e dos escuros das noites.

quando a Mariana chegou às nossas vidas na forma de uma surpresa, um ouricinho tão pequenino quanto exigente, não sabia ainda – nem estava preparada – para todas as mudanças, todas as alterações que trazia com ela.

a Mariana ensinou-me que nem todos os bebés são como os descrevem nos livros. que há aqueles que não dormem 16 horas por dia, que há aqueles que não se acalmam com música, com bonecos, com fraldas. ensinou-me que as relações se constroem aos bocadinhos, em cada toque, em cada olhar. ensinou-me que um bebé pode chorar um dia inteiro e dar o seu primeiro sorriso às 4 e meia da manhã. que cada segundo conta, que cada minuto é importante, que cada hora é cheia de tempo tão breve que sabe a eternidade.

até agora tenho conseguido cumprir a promessa que lhe fiz, promessa que renovo cada dia. estes últimos cinco (quase seis) meses têm sido cheios de música, de sons, de toques. enche-nos de paz, encontrar alguém que responde ao nosso beijo com um sorriso, que adormece quando cantamos baixinho, alguém cujos olhos brilham quando ouve a nossa voz. a quem podemos dizer “gosto de ti” vezes sem conta. e, mesmo que agora a separação doa mais, não me arrependo de lhe ter dedicado cada segundo destes cinco meses da minha vida. porque não é por não nos entregarmos que ficamos mais resistentes. porque não é por a anteciparmos que a dor dói menos.

a Mariana vai crescer e vai chegar o dia em que não vai precisar tanto de mim, eu sei. mas também sei – tenho a certeza – que vou precisar sempre dela.