
Dia em que o Mimos foi à vacina, as meninas foram a casa da Avó Maria e eu fui ao Lidl ![]()
Sair de casa sempre foi um filme: é uma que se esquece do chapéu, é outra que já dentro do carro avisa que está de chinelos, é o ter de esperar para se preparar a carteira.
Agora, a isto, juntam-se as máscaras, o álcool e um cão.
“Porque ele pode ter sede”, “porque ele pode ter fome”, porque “onde está o brinquedo?”, porque “está de trela e pensa que está de castigo”. E eu? Eu só espero que ele não faça as necessidades pelo caminho, que não fique indisposto, que se mantenha lá atrás entre as garotas, que não se lembre de começar a ladrar.
A vacina correu bem, a veterinária é um amor. Mais vacinas daqui a um mês, evitar o sol durante o dia de hoje, e lá vamos nós para casa da avó Maria.
Deixo lá as meninas, deixo lá o cachorro, confirmo que “tem a certeza que não vão incomodar?” e saio rumo ao Lidl, para tentar em meia hora trazer tudo o que nos vai manter afastados dos supermercados durante duas semanas.
Não fosse a máscara, não fossem as linhas marcadas no chão, não fosse eu não ter ido sem óculos, e teria sido uma ida como as de antes: corredores largos, ordenados, ar fresco, evitar os queijos, olha molho novo de pizzas, devia levar integral, até que enfim aveia bio, olha os salgadinhos em promoção.
Na fila para pagar, um senhor com uma garrafa de água passa à minha frente. Depois volta-se, ar surpreso, pede desculpa, diz que não reparou. Só lhe vejo os olhos, mas sinto que diz a verdade. “Eu ia-lhe dizer mesmo para passar, só leva uma garrafa”, “desculpe, não a vi, tem a certeza que não se importa?”.
Sorrio, e repito que não há problema. O senhor insiste, tem certeza? E eu penso que, na verdade, o sorriso que se vê nos lábios faz falta. Que pode tranquilizar, dar força à palavra, que o sorriso só pela metade (aquele que se consegue ver nos olhos que espreitam por cima da máscara) nem sempre é o suficiente para nos fazermos entender.
Vou buscar as meninas, vá digam xau aos avós. Abraços dados nas costas, beijinhos atirados com os dedos. Não é tudo, já é alguma coisa.
Em casa, depois de arrumar as compras e limpar o carro (ficou indisposto…), respiro profundamente.
A minha casa, o meu lar, o espaço que sempre senti como o meu espaço, assume o papel de santuário. De lugar onde se respira, onde se ri de olhos e lábios, lugar onde se dá beijos e onde os braços se enrolam.
Diziam (e eu também) que não há lugar como a nossa casa.
Nestes dias, isso tornou-se ainda mais verdadeiro.