Dia 52


(no ano passado, pelo meu aniversário, um grupo de amigos deu-me uma árvore pequenina. Quando abri a caixa, e vi o que esta continha, disse logo “não é para mim, é para a Carolina”.
E foi preciso dizerem três vezes que sim, que era para mim, para eu perceber – e ainda assim sem certezas – que me tinham dado uma planta.
Eles (ainda) não sabiam, mas eu não sou boa a cuidar de plantas. Não me consigo vincular a elas, e elas devem sentir isso.
As que tenho no jardim, e que vivem por sua conta, são bonitas e crescem porque é delas que vem a força. Não dependem de mim, não precisam de mim. Governam-se sem mão humana, e isso basta-as.
Mas esta planta, esta árvore pequenina, trouxe para casa o gesto dos meus amigos e a emoção estranha que senti ao recebê-la: uma sensação de “é desta. é esta. tens finalmente uma planta que queres cuidar”.
A citrina já deu frutos, e agora floresce de novo. Cuido dela, mudo-lhe a terra, limpo-lhe as folhas, verifico se a terra ainda está húmida ou precisa de ser regada.
Respeito-a, e ela corresponde crescendo)

Hoje o dia começou com flores.
Acordei cedo, tomei o pequeno-almoço, e fui ao jardim colher verdes para colocar na campa dos meus avós.
Este ano é o primeiro ano em que não vou a casa da minha mãe no dia da mãe. Será o primeiro ano, desde que nasci, que passarei este dia sem estar nem um minuto com ela. Para a minha mãe, será o primeiro ano em que não levará flores à campa da mãe dela.
E eu – que conheço a minha mãe, os cambiantes da voz, as pausas, os mudares de assunto ou os insistir em determinado detalhe – sei o que isto lhe custa.

Por isso, hoje o dia começou com flores.
Apanhei hortenses, brancas, tímidas. Apanhei verdes, grandes, viçosos. E a campa dos meus avós, onde estão também a minha tia (uma Mãe forte, uma mãe grande, uma mãe imensa) e o meu primo Pedro, tem flores frescas a lembrar – mais aos vivos que aos mortos – que não estão esquecidos. Que continuam connosco, nas nossas conversas, nas nossas memórias, nos nossos pensamentos.

As plantas e as flores conseguem carregar os sentimentos de quem as oferece, na esperança de serem entendidos por quem as recebe.
Eu olho para as flores na campa dos meus avós, e vejo o amor dos filhos, dos netos, dos sobrinhos e dos primos.
Olho para a minha citrina, e vejo a amizade de quem – conhecendo-me há pouco tempo – sentiu (se calhar mesmo sem o saber) que estava na altura de eu aprender a cuidar.

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