Dia…


Dia… Já não sei que dia é.
Deixei de os contar quando chegaram aos 90, quando eu cheguei aos 45, quando um novo ano começou.
Neste dias, desde o 90º até ao de hoje, fomos voltando (devagarinho, e por algumas horas) a estar com quem mais amamos: com os pais/avós.
Nestes dias, fomos intercalando os telefonemas com os abraços dados pelas costas. Ainda não damos beijinhos, mas os “Adeus, avó!” já não ficam pelo som, leem-se nos olhos e nos sorrisos e nos acenos a dois metros.
Aos bocadinhos, vamos avançando.
Não com medo, mas com respeito.
Às vezes chegando mais perto, depois dando um passo atrás, para se aproximar pouco depois.

Ontem disse-lhes que íamos à praia.
Hoje acordaram cedo, com um entusiasmo e felicidade que se ouvia em cada riso.
A Torreira linda como só ela sabe ser: areia a perder de vista, ar a cheirar a sal, mar de ondas quase sem som.
A Torreira – que consegue ser tão agreste – hoje recebeu-nos como se tivesse saudades.
Ou como se soubesse as saudades que temos dela.

Aos poucos, devagarinho, vamos saindo.
Primeiro até casa de quem amamos.
Depois para a praia, aquela que sempre foi e sempre será a minha.
A praia que depois de hoje – suspeito – elas também começam a sentir como sua.

Dia 56+29


Hoje foi um dia diferente. Durante pouco mais de 45 minutos, conversei um pouco sobre anúncios no Facebook, sobre cuidados a ter no desenho e divulgação de ideias, produtos, empresas.
Não sou especialista na área, não tenho pretensão de o ser, mas os anos em que lidei com este tema – primeiro investigando, depois implementando – permitem-me, pelo menos, ter uma opinião sustentada sobre o tema.Foi bom, pelo menos para mim 😃
Revisitei mentalmente locais antigos, molhei os pés nas águas do copy, da imagem, da segmentação, dos indicadores, métricas e resultados. E, por minutos, voltei a sentir o bichinho que é criar conteúdos para outros, conteúdos para serem vistos, partilhados. Voltei a sentir aquela agitação de experimentar públicos, trabalhar o detalhe de uma imagem, ver as coisas a encaixarem uma na outra e na outra e na outra até todo o produto (neste caso a comunicação) fazer sentido.

Claro que em tudo ou quase tudo há um reverso: na medalha das redes sociais, o lado menos bonito é tomarmos consciência que somos conduzidos, que há masterminds a planear isto tudo, que quase nada acontece por acaso e que se “por acaso” nos encontramos com algo que nem sabíamos que andávamos à procura, isso não é serendipity mas sim o resultado de uma estratégia de comunicação muito bem afinada, muito bem testada, muito bem planeada e implementada.

Nos dias de hoje, esta noção – que somos linhas numa base de dados, que pertencemos a segmentos e categorias com preferências e comportamentos previsíveis – assume um papel ainda mais importante. Estamos expostos a comunicação online muito bem feita, muito bem desenhada. O conhecimento sobre “o algoritmo” (essa entidade…), sobre o que impele a comentar, a partilhar, qual o discurso mais viral, faz parte dos manuais de figuras que vemos todos os dias nas TVs, nos jornais, na Internet.Nos dias de hoje, mais do que nunca, esta noção de que temos de ser cada vez mais críticos e mais conscientes na forma como publicamos, reagimos, partilhamos e interagimos na rede é algo que deve ser falado, discutido, analisado.
A rede e as redes fazem parte da nossa vida há décadas, e fazem parte da vida dos nossos filhos desde que nasceram. Não há como fugir dela, não é preciso fugir dela, não faz sentido fugir dela.O que é preciso – isso sim – é aprender a usá-la de forma crítica.

Dia 56+27


É impossível passar o dia de hoje sem se falar naquilo que, hoje, fez parte dos assuntos do dia: as fotos negras de perfil, e tudo o que a elas está associado.
Hoje, dia de aulas e de alunos, as miúdas tiveram folga. Vamos trabalhar daqui a pouco, tentar ganhar fora de horas as horas que não trabalhámos durante o dia, mas como hoje fecho o computador mais cedo – e durante o dia fui eu e o computador, com intervalo para refeições – não posso falar do que ainda não aconteceu.

Quem me conhece sabe que sou tolerante, por vezes em demasia, e que me custa (muito, tanto), impor limites ao discurso dos outros. Aguento até onde consigo, tento colocar-me na posição do outro, faço um esforço. Normalmente saio destes exercícios cansada, a contar o que devia ter dito e não disse, a indexar argumentos que não usei nem nunca irei usar.
Quem me conhece bem, sabe que quando algum ponto nuclear é tocado, quando esses comentários e conversas (de circunstância, de café ou de debate) mexem com os meus valores core, acabo por me levantar e sair para não ouvir. Ficar sentado e nada dizer nem sempre significa concordar; ainda assim, e como um dia vi numa magnífica série de televisão, não posso (nem devo) impedir alguém de falar. Mas também não me podem obrigar a ouvir.
Quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que raramente entro em conflitos. Que preservo a paz de espírito acima de tudo. E quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que essa paz de espírito, na última década – desde que a Mariana nasceu – me leva algumas vezes a intervir. A interromper. A dizer que “não é bem assim”.
Ser mãe fez-me tomar posição. Ser mãe, ser um primeiro modelo ou exemplo – primeiro, elas terão tantos, bons e maus e assim-assim – fez-me perceber que há coisas, há assuntos, há temas, em que temos de assumir uma posição.
A generalização, que muitas vezes é o primeiro passo para a desumanização, é um dos pontos que me faz agir, que me faz interromper. A generalização, o tomar a parte pelo todo, o classificar pessoas pela cor da pele, etnia, religião, nível socio-económico, é coisa que me incomoda profundamente. Não é por se ser político que se é corrupto; não é por se ser patrão ou ter dinheiro que se é explorador; não é por se ser cigano que se é ladrão; não é por se ser polícia que se é violento; não é por se ser católico que se é ignorante; não é por se ser padre que se é pedófilo. A generalização, primeiro passo para a desumanização, não deve continuar e tem mesmo de ser combatida. E as frases que escrevi acima, infelizmente, ouvi-as de pessoas que respeito, que gosto, pelas quais tenho consideração. São generalizações, frases feitas, lugares comuns. E podem ser o primeiro passo para algo mais sério.

No início deste ano letivo, comprei às miúdas uma caixa de lápis de cor especial, os “skin tones” da Giotto. Não foram baratos, não foram comprados porque estavam na moda ou simplesmente porque ficava bonito.
Quando os comprei, e os dei às garotas com a indicação de que “são para usar, podem emprestar aos outros meninos, têm aqui todos os tons de pele”, fi-lo com a intenção de lhes mostrar (numa caixa de lápis, é certo) que não há um tom, uma pele. Que o rosa-claro é da pele da Margarida; que o castanho é a cor da Mariana; que o castanho escuro é a cor do colega novo; que o rosa avermelhado é a cor da pele da mãe.
E este exercício com os tons de peles podem ser alargados a outros campos, outros assuntos, outros domínios.
Tento fazê-lo nas nossas conversas, humanizando os casos e as situações, explicando que há pessoas que são boas e há pessoas que são más, que há pessoas que agem bem e há pessoas que agem mal. Que a cor da pele, a nacionalidade, a etnia, a religião, definem-nos enquanto pessoa, na medida em que são parte daquilo que somos e nos ajudam a construir comunidade, a pertencer a comunidade.
Mas que não podem, NUNCA, ser motivo de discriminação. Que isso é coisa que não podemos tolerar com silêncio, ou permitir afastando-nos do que nos incomoda.
Que isso sim, é coisa que nos deve impelir a assumir uma posição.

Dia 56+15


Ganhei o hábito de, todos os dias, tirar uma fotografia. Não a mim, nem sempre a elas, mas todos os dias procuro registar uma imagem, um momento, um detalhe que fez este dia (ainda mais) único.
Esta manhã, depois do pequeno-almoço e da telescola e antes de começarem a trabalhar a sério, abri a porta e deixei o Mimos entrar.
E a alegria delas ao vê-lo dentro de casa, o espanto ao perceberem que eu tinha deixado, foi ainda maior do que aquele que eu esperava.
O Mimos anda lá fora porque lá fora tem mais espaço que dentro de casa. Tem uma caminha, tem comida e água fresca, tem coleira mas não tem trela. Acorda quando quer, corre, trata dos seus serviços; dorme na varanda-alpendre, quando a tijoleira está quente do sol; corre para o muro, a ladrar a cachorros maiores que ele; vai chatear a Riscas (a nossa gata velhota, que nunca pensou na terceira idade ter de aturar um cachorro sem noção); volta a beber água, a roer o tapete, a arrancar a roupa do estendal, e volta a dormir.
Fiz-lhes perceber isso, quando há dois meses insistiram para ele continuar “cá dentro”. E ainda que sintamos a falta daquele focinho pousado no nosso colo, o Mimos fica lá fora.

Hoje, porque as regras são para se contornar de vez em quando, o Mimos voltou à nossa sala. Não roeu nada, não mordeu nada. Saltou para o colo delas, deu-lhes imensas lambidelas 😛, e depois enroscou-se e adormeceu.
E elas ficaram ali, enroscadas nele, sem fazer barulho… como os pais fazem quando têm filhos pequenos.

Hoje não aconteceu nada digno de registo. Pelo menos há pouco, quando pensei “pronto, hoje não escrevo nada e fecho este ciclo”, pensava que não.
Por isso fui ver as fotos; ver o que eu tinha, hoje, achado digno de registar.
Duas filhas e um cão 🙂