Dia 56+17, 18, 19 e 20


Já passaram 76 dias. Ou 56+20, se continuar a contar o dia 57º dia como aquele que marca o nosso pequeno sair do desconfinamento, quando fomos levar o Mimos à vacina.
Nestes 76 dias – e não preciso fazer um grande exercício de memória, que as emoções continuam tão vivas que há dias em que é complicado lidar com elas – vou alternando entre várias fases.

Na primeira semana foi o medo que tomou conta. Voltar à caverna, encontrar refúgio; respirar devagar, como se estivesse a racionar o oxigénio; ter medo do que não se conhece e temer aquilo que já era conhecido.
Foram dias e noites muito complicados de gerir: não querer passar às meninas estas sensações foi um esforço grande, exigente, deixou-me de rastos e com a cabeça desfeita. Nessa semana, à noite, quando a cabeça se perdia em cenários escuros, tomei calmantes para conseguir desligar, sair da espiral de medo e conseguir dormir.

A segunda semana foi o medo de não ter o que comer. Nada faltou, felizmente, mas as imagens de filas à entrada dos supermercados, o ver na TV as prateleiras vazias, encheu-me do segundo medo: tenho abrigo, não tenho alimento para os meus. Cheguei a sonhar que não tinha cenouras para fazer sopa; estupidamente (ou não, chama-se não desperdiçar) fazia render os alimentos como as nossas avós faziam render o peixe: a parte melhor para os nossos, o que sobra para nós. E foi este receio de não ter frescos, cenouras, batatas, que me levou a sair pela primeira vez de casa, para ir ao minimercado.
Chegada a casa, com o congelador cheio, descansei.
A gestão continuou a mesma, aproveitar e não desperdiçar, mas ver que o agricultor continuava a sair para o campo, que o peixe continuava a ser pescado, deixou-me mais aliviada. Foi o primeiro passo para sair do medo: tinha casa, tinha alimento. Necessidades mais básicas asseguradas, o resto era acessório.

Nos tempos que se seguiram veio a saudade. Saudade do DeCa e das pessoas, saudade das rotinas, saudade das professoras das meninas, saudades de as deixar na escola e de as ir buscar ao final do dia. E saudades, imensas saudades da família. Foram os dias de whatsapp com os avós, os dias do olá do outro lado do muro. Uma saudade avassaladora, que esmagava. Saudade de abraçar, de estar perto, saudade de pedir e de dar colo.
E se as fases anteriores foram difíceis fisicamente (o medo tolhe os músculos, estar constantemente à espera que algo aconteça cria tensão, cansa), esta foi pesada no coração. Andei triste. Desanimada. Vivia um dia a seguir ao outro, contando-os mas sem os viver muito, como quando temos um bebé que chora durante toda a noite e só pensamos “isto vai passa. aguenta, isto vai passar”.

Depois, aos poucos – e com a primeira ida a casa da minha sogra, com a primeira ida a casa dos meus pais – este sentimento de saudade acalmou. Percebi que o telefone não substitui nem de longe nem de perto o contacto; percebi que preciso de os ver, ainda que a dois metros de distância; que preciso de os ver rir, de os ouvir reclamar com o estado das coisas. E ainda que a saudade não tenha passado mas apenas acalmado, deixou de ocupar tanto espaço. Sei que não posso estar lá quando quero, cada ida é articulada com irmãos para não estarmos todos ao mesmo tempo no mesmo espaço, mas é mais fácil de gerir.
A cada duas semanas estou com eles, e isso é algo pelo qual vale a pena esperar.

Ao longo de todos estes dias, estes 76 dias (porra, tantos) com tantas variáveis, a Mariana e a Margarida são as minhas constantes.
São o meu chão e o meu telhado, as minhas raízes e as minhas folhas.
Se eu um dia chorei ao pensar que ter filhos não era coisa que me estava destinada, agora fico de alma quente a cada gesto, a cada palavra, a cada mimo.
Ser mãe delas continua a ser tão fascinante como no primeiro dia; continuo a gostar e a viver cada minuto, cada segundo. Dou-lhes um beijo antes de dormir, gesto que repito desde que nasceram. Canto-lhes bom dia quando acordam, coisa que faço desde o primeiro dia.

Destes dias que passamos em casa, daqui a uns anos, sei que não vou recordar o medo, a angústia, a apatia, a saudade. Sei-o, porque vivo as emoções negativas muito intensamente, tão intensamente que elas gastam-se e perdem a cor. Um dia, assim o espero, este turbilhão será pouco mais que uma lembrança.
Mas o estar com elas, todo o dia e todos os dias, ouvi-las, dar-lhes colo, pentear-lhes o cabelo, estar junto e abraçar, isso é coisa que vou guardar para todo o sempre.

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