Dia 56+22


Hoje foi um dia bom, de calor quente e não apenas sufocante, de sol que aquece a pele molhada quando esta começa a arrepiar.
Hoje mudaram-se para a varanda, “está calor, mãe, vem para cá”. Fazem os trabalhos sem reclamar, a água ali ao lado, o saber que depois daquilo que não queriam muito teriam aquilo que pedem desde ontem.
Está vento, vou lá dentro buscar um pisa-papéis.
“Mãe, o que é isso?, mãe, um pisa-quê?”
Trago a pedra que a Magui pintou, num tempo em que os dedos ainda se enchiam de tinta porque não conseguia segurar os pincéis. Uma pedra-joaninha, que tem vivido na janela entre vasos e plantas que se aguentam sozinhas.
“É uma pedra”, dizem.
E eu finjo que não percebo o que estão a dizer, o que o que dizem quer realmente dizer: que estamos a passar demasiado tempo dentro de casa. Que já não sabem bem o que é trabalhar cá fora. Que o conceito de pisa-papéis – quando o ar condicionado torna desnecessário o abrir de janelas – e a ideia de trabalhos misturados pelas rajadas de vento é coisa que tem estado afastada da realidade delas.
Vivem num mundo condicionado – ainda mais nos últimos meses – protegido do sol e do vento, protegidas de quase tudo; se está vento ficamos em casa, se chove não saímos para brincar. E eu penso “ainda estamos a tempo”, e digo-lhes que quando éramos pequenos, na escola, pintávamos um pisa-papéis para o Dia do Pai. Que o avô Zé ainda tem os dele, alguns dentro de gavetas e outros espalhados pelo espaço ainda livre da escrivaninha.
Elas riem ao ver as folhas agitadas, repetem “pisa-papéis” como quem experimenta uma palavra estranha, pedem para fazer uma pausa nos trabalhos e enfiam-se dentro de água.


Agora é noite, e estão cansadas de tanto brincar. Se tudo correr bem, vão adormecer sem dar (muito trabalho)
É bom, hoje foi um dia bom.
Amanhã, vamos trabalhar de novo fora de casa.

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