
Chega uma altura, na vida, em que elas sabem mais do que nós. Continuo a guardiã das histórias contadas em livros (que li muitos mais do que elas), sei mais de física ou de geometria, mas há domínios do conhecimento que começam a deslizar, saberes que tento suster na memória e que mesmo assim já não chegam para o que elas sabem e já aprenderam.
Quando andava no ciclo, agora chamado segundo ciclo do ensino básico, não sabia nem gostava de música. Nos tempos em que andei no rancho (a vida era divertida para quem não morava na cidade), na Casa do Pessoal da Quimigal, havia uma sala – quem subia a escadaria ficava ao fundo, à esquerda – onde se ensinava música.
Eram tempos em que se faziam festas de Natal, três sessões num mesmo dia, em que os filhos dos trabalhadores recebiam prendas que os pais não conseguiam comprar e em que o campo – onde agora está a biblioteca – se enchia das vozes de quem jogava e quem assistia aos jogos.
A sala de música assustava-me, incomodava-me. À hora que eu chegava estavam invariavelmente no solfejo, uma coisa de “tá-tá-tá… tá”. Não fazia sentido. Não se cantava, não se fazia música, era um ta-ta-ta sem nexo e sem ligação com a realidade.
Quando no quinto ano tive música, se não fui a pior da turma estive perto de o ser. Aquele ta-ta-t-a tinha feito nascer uma aversão de raízes fundas, que custavam arrancar. Nesse ano tive a nota final de 3, porque “alunas de 5 não têm negativa”.
No ano seguinte o cenário melhorou: a professora, Edviges Helena de seu nome, conseguiu despertar em mim um interesse pela matéria, pela organização, pela estrutura, pelas pautas e pelos instrumentos. Terminei com 4. Nada mau, consegui viver com isso.
Quando a Mariana andava na Probranca, ainda nos tempos da “minha Cristina”, a Eva começou a ensinar flauta aos meninos do infantário. Primeiro a choro, depois a medo, depois a gosto, a Mariana aprendeu a tocar.
E vê-la a transformar letras em sons, a tocar pequenas peças, começou a mexer comigo – havia uma coisa que eu não conseguia fazer com ela, havia uma área em que eu nunca a poderia acompanhar.
Já passaram alguns anos, e a flauta de plástico está arrumada a um canto, à espera de passar para a Margarida. Agora, a Mariana tem uma flauta “a sério”, sem curva.
E é um gosto – e uma dor de cabeça, nas vésperas de audições – ouvi-la tocar.
Fico em silêncio, a marcar sem barulho um ritmo que nem sei se é o certo, ali ao lado dela, só para a poder ouvir tocar peças já um pouco mais complexas, pautas cheias de símbolos que eu nunca soube interpretar.
É ela agora quem me ensina, quem me diz que “não vês que isto é um tempo? e se for assim já são dois?”, e que faz, a cada sorriso e pegar de flauta, diluir e empurrar para longe aquele tá-tá-tá de outros tempos.