
Hoje saímos de casa para comprar comida. Dito assim, parece assunto sério – mas não é: há atum, há arroz, há frango, há grão-de-bico e feijão frade (cujos frascos, suspeito, vão ficar por abrir até à próxima pandemia). Há pão, leite, manteiga, mirtilos, cerejas, abóbora, batatas e cebola.
Mas hoje apetecia algo… bom ![]()
A Magui terminou os trabalhos antes das 11 da manhã (terá por eu ter ficado ao lado dela, a elogiar cada letra?), Mariana orientada, trabalho em ordem, cesto da roupa ainda quase vazio. Pequenas coisas, pequenos pontos altos do dia que mereciam celebração.
“Vamos ao Burger King!”, disse-lhes. “YEEEEEY”, responderam.
Ao abrir a garagem, vejo que o esposo levou carro preto e deixou ficar a banheira, o avião, o T0 que dá pelo nome de Passat. O carro onde me sinto ainda mais pequena, onde não consigo perceber onde o muro começa e a chapa acaba, o carro que só conduzo em situação de emergência porque foi concebido para gente grande e eu nunca passei do metro e cinquenta e quatro.
“Vamos antes mais logo, quando o papá chegar”, propus. Que não, que elas nem falavam durante a viagem “para a mamã não se distrair”, que era rápido e que eu tinha de ter coragem – isto Margarida; Mariana, sabendo como eu não gosto de conduzir carros grandes, tinha ficado convencida logo ao ver o meu ar de “porra…”
Saímos. Devagar, pela estrada da Senhora do Socorro (evitando a nacional), banco chegado à frente, miúdas caladas que nem ratos, duas mãos a agarrar firmemente o volante na posição das “dez para as duas”.
Quando chegámos ao Burger King, Drive Through, tomei mais uma vez consciência do que significa nestes dias sair de casa: põe máscara, abre janela, faz pedido, avança um pouco, diz bom dia, sorri mesmo sabendo que quem nos atende não vê; passa cartão, recebe cartão, não coloca cartão na carteira, recebe comida, desinfeta mãos, diz “obrigada” e arranca enquanto fecha a janela.
A moça, simpática e de olhos grandes e bonitos, fazia tudo com método e segurança, cumprindo um ritual que já deve estar mais que treinado.
Regresso pela mesma estrada, entrar na garagem, sair do carro, perceber que a traseira do T0 ficou de fora, voltar a entrar no carro, puxar à frente, fechar a porta, entrar em casa. Sapatos ficam cá fora, ainda que não tenha saído do carro: se se tornar um hábito, fica mais difícil de se esquecer.
Limpar garrafas, retirar tudo das embalagens, comer no chão da sala. Mãos enlambuzadas, risos a saber a coisa boa ![]()
Da última vez que as meninas foram assim, ao Burger King, foi com o Gonçalo ainda antes destes 56+28 dias. Já nessa altura não entraram, e a comida foi pedida pela janela: “não quis arriscar em locais com muita gente”, disse-me o Gonçalo quando cheguei a casa, vinda de um jantar com colegas de Coimbra.
As coisas mudaram, e nós vamo-nos adaptando a elas. Começamos a incorporar pequenos rituais ou celebrações de outros tempos, quando os beijos se davam e as mãos se apertavam com força, nesta realidade que é agora a nossa.Assim se vive, em terras da Branca ![]()
(a foto é de hoje. deixei o Mimos entrar para brincar com as meninas, mas o pai não sabe. e, como não lê nada do que publico aqui no Facebook, penso que não saberá tão cedo
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