Dia 56+27


É impossível passar o dia de hoje sem se falar naquilo que, hoje, fez parte dos assuntos do dia: as fotos negras de perfil, e tudo o que a elas está associado.
Hoje, dia de aulas e de alunos, as miúdas tiveram folga. Vamos trabalhar daqui a pouco, tentar ganhar fora de horas as horas que não trabalhámos durante o dia, mas como hoje fecho o computador mais cedo – e durante o dia fui eu e o computador, com intervalo para refeições – não posso falar do que ainda não aconteceu.

Quem me conhece sabe que sou tolerante, por vezes em demasia, e que me custa (muito, tanto), impor limites ao discurso dos outros. Aguento até onde consigo, tento colocar-me na posição do outro, faço um esforço. Normalmente saio destes exercícios cansada, a contar o que devia ter dito e não disse, a indexar argumentos que não usei nem nunca irei usar.
Quem me conhece bem, sabe que quando algum ponto nuclear é tocado, quando esses comentários e conversas (de circunstância, de café ou de debate) mexem com os meus valores core, acabo por me levantar e sair para não ouvir. Ficar sentado e nada dizer nem sempre significa concordar; ainda assim, e como um dia vi numa magnífica série de televisão, não posso (nem devo) impedir alguém de falar. Mas também não me podem obrigar a ouvir.
Quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que raramente entro em conflitos. Que preservo a paz de espírito acima de tudo. E quem me conhece mesmo, mesmo bem, sabe que essa paz de espírito, na última década – desde que a Mariana nasceu – me leva algumas vezes a intervir. A interromper. A dizer que “não é bem assim”.
Ser mãe fez-me tomar posição. Ser mãe, ser um primeiro modelo ou exemplo – primeiro, elas terão tantos, bons e maus e assim-assim – fez-me perceber que há coisas, há assuntos, há temas, em que temos de assumir uma posição.
A generalização, que muitas vezes é o primeiro passo para a desumanização, é um dos pontos que me faz agir, que me faz interromper. A generalização, o tomar a parte pelo todo, o classificar pessoas pela cor da pele, etnia, religião, nível socio-económico, é coisa que me incomoda profundamente. Não é por se ser político que se é corrupto; não é por se ser patrão ou ter dinheiro que se é explorador; não é por se ser cigano que se é ladrão; não é por se ser polícia que se é violento; não é por se ser católico que se é ignorante; não é por se ser padre que se é pedófilo. A generalização, primeiro passo para a desumanização, não deve continuar e tem mesmo de ser combatida. E as frases que escrevi acima, infelizmente, ouvi-as de pessoas que respeito, que gosto, pelas quais tenho consideração. São generalizações, frases feitas, lugares comuns. E podem ser o primeiro passo para algo mais sério.

No início deste ano letivo, comprei às miúdas uma caixa de lápis de cor especial, os “skin tones” da Giotto. Não foram baratos, não foram comprados porque estavam na moda ou simplesmente porque ficava bonito.
Quando os comprei, e os dei às garotas com a indicação de que “são para usar, podem emprestar aos outros meninos, têm aqui todos os tons de pele”, fi-lo com a intenção de lhes mostrar (numa caixa de lápis, é certo) que não há um tom, uma pele. Que o rosa-claro é da pele da Margarida; que o castanho é a cor da Mariana; que o castanho escuro é a cor do colega novo; que o rosa avermelhado é a cor da pele da mãe.
E este exercício com os tons de peles podem ser alargados a outros campos, outros assuntos, outros domínios.
Tento fazê-lo nas nossas conversas, humanizando os casos e as situações, explicando que há pessoas que são boas e há pessoas que são más, que há pessoas que agem bem e há pessoas que agem mal. Que a cor da pele, a nacionalidade, a etnia, a religião, definem-nos enquanto pessoa, na medida em que são parte daquilo que somos e nos ajudam a construir comunidade, a pertencer a comunidade.
Mas que não podem, NUNCA, ser motivo de discriminação. Que isso é coisa que não podemos tolerar com silêncio, ou permitir afastando-nos do que nos incomoda.
Que isso sim, é coisa que nos deve impelir a assumir uma posição.

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