
Dia de ir buscar o que ficou na escola, de subir as escadas que levam ao primeiro piso, de falar com a professora. Dia de falar, dia de ouvir. Uma conversa curta, filtrada, escutada nos olhos e nos movimentos das mãos.
Gosto da professora da Mariana. Gosto desde o primeiro dia. Vamos continuar a gostar.
Fim do dia, regressam cansadas. Foi dia de caminhada, de skate park, de brincadeiras, tantas que no meio de tudo quase se esquecem das novas regras de convivência social: o trocar o calçado, o lavar mais uma vez as mãos, o usar a máscara, o almoçar cadeira sim cadeira não.
O regresso à Probranca, ao ATL, está-nos a fazer bem. Eu tenho tempo durante o dia para trabalhar, tenho tempo à hora de almoço para pensar no que ainda precisa ser pensado. E elas têm tempo para brincar, para estar com outros miúdos, para re-sentir o cheiro àquelas paredes que também são as delas há alguns anos.
Antes dos banhos, Mariana pede para ler em voz alta os trabalhos da escola. Folheia-os um a um, “não entendo como só tive Bom neste desenho”, passamos pela matemática, terminamos com o Inglês.
É aqui que peço que espere um bocadinho.
E vou buscar o chapéu que fará a vez da cartola, o caldeirão que fará a vez do penico, a vela que fará a vez da bengala.
E digo-lhe que este este é o ano em que muda de escola. Que este é um ano em que navegou em águas calmas e depois mais agitadas.
E é o ano em que conseguiu conquistar tudo o que havia a ser conquistado nestes mates. E digo-lhe que neste ano teve de misturar um bocadinho de escola e de casa, de mexer tudo muito bem, de temperar com ou duas lágrimas e de salpicar com muitos risos. E que tudo isso resultou na poção mágica que nos deu mais força nestes dias.
E digo-lhe que nestes dias, nestes meses, tem sido luz. A luz que me ilumina, a luz que ilumina os outros. Que muitas vezes me apontou o caminho, e me deixou ver para além das nuvens escuras.
E depois passo-lhe o diploma do 4º ano para as mãos.
E ela sorri, olhos castanhos cheios de luz, solta um “obrigada!” e num abraço onde não há reservas diz, com aquele jeitinho que é só dela:
“Obrigada por isto. És a melhor mãe do mundo”.