56+23


Chega uma altura, na vida, em que elas sabem mais do que nós. Continuo a guardiã das histórias contadas em livros (que li muitos mais do que elas), sei mais de física ou de geometria, mas há domínios do conhecimento que começam a deslizar, saberes que tento suster na memória e que mesmo assim já não chegam para o que elas sabem e já aprenderam.

Quando andava no ciclo, agora chamado segundo ciclo do ensino básico, não sabia nem gostava de música. Nos tempos em que andei no rancho (a vida era divertida para quem não morava na cidade), na Casa do Pessoal da Quimigal, havia uma sala – quem subia a escadaria ficava ao fundo, à esquerda – onde se ensinava música.
Eram tempos em que se faziam festas de Natal, três sessões num mesmo dia, em que os filhos dos trabalhadores recebiam prendas que os pais não conseguiam comprar e em que o campo – onde agora está a biblioteca – se enchia das vozes de quem jogava e quem assistia aos jogos.
A sala de música assustava-me, incomodava-me. À hora que eu chegava estavam invariavelmente no solfejo, uma coisa de “tá-tá-tá… tá”. Não fazia sentido. Não se cantava, não se fazia música, era um ta-ta-ta sem nexo e sem ligação com a realidade.
Quando no quinto ano tive música, se não fui a pior da turma estive perto de o ser. Aquele ta-ta-t-a tinha feito nascer uma aversão de raízes fundas, que custavam arrancar. Nesse ano tive a nota final de 3, porque “alunas de 5 não têm negativa”.
No ano seguinte o cenário melhorou: a professora, Edviges Helena de seu nome, conseguiu despertar em mim um interesse pela matéria, pela organização, pela estrutura, pelas pautas e pelos instrumentos. Terminei com 4. Nada mau, consegui viver com isso.

Quando a Mariana andava na Probranca, ainda nos tempos da “minha Cristina”, a Eva começou a ensinar flauta aos meninos do infantário. Primeiro a choro, depois a medo, depois a gosto, a Mariana aprendeu a tocar.
E vê-la a transformar letras em sons, a tocar pequenas peças, começou a mexer comigo – havia uma coisa que eu não conseguia fazer com ela, havia uma área em que eu nunca a poderia acompanhar.

Já passaram alguns anos, e a flauta de plástico está arrumada a um canto, à espera de passar para a Margarida. Agora, a Mariana tem uma flauta “a sério”, sem curva.
E é um gosto – e uma dor de cabeça, nas vésperas de audições – ouvi-la tocar.
Fico em silêncio, a marcar sem barulho um ritmo que nem sei se é o certo, ali ao lado dela, só para a poder ouvir tocar peças já um pouco mais complexas, pautas cheias de símbolos que eu nunca soube interpretar.
É ela agora quem me ensina, quem me diz que “não vês que isto é um tempo? e se for assim já são dois?”, e que faz, a cada sorriso e pegar de flauta, diluir e empurrar para longe aquele tá-tá-tá de outros tempos.

Dia 56+22


Hoje foi um dia bom, de calor quente e não apenas sufocante, de sol que aquece a pele molhada quando esta começa a arrepiar.
Hoje mudaram-se para a varanda, “está calor, mãe, vem para cá”. Fazem os trabalhos sem reclamar, a água ali ao lado, o saber que depois daquilo que não queriam muito teriam aquilo que pedem desde ontem.
Está vento, vou lá dentro buscar um pisa-papéis.
“Mãe, o que é isso?, mãe, um pisa-quê?”
Trago a pedra que a Magui pintou, num tempo em que os dedos ainda se enchiam de tinta porque não conseguia segurar os pincéis. Uma pedra-joaninha, que tem vivido na janela entre vasos e plantas que se aguentam sozinhas.
“É uma pedra”, dizem.
E eu finjo que não percebo o que estão a dizer, o que o que dizem quer realmente dizer: que estamos a passar demasiado tempo dentro de casa. Que já não sabem bem o que é trabalhar cá fora. Que o conceito de pisa-papéis – quando o ar condicionado torna desnecessário o abrir de janelas – e a ideia de trabalhos misturados pelas rajadas de vento é coisa que tem estado afastada da realidade delas.
Vivem num mundo condicionado – ainda mais nos últimos meses – protegido do sol e do vento, protegidas de quase tudo; se está vento ficamos em casa, se chove não saímos para brincar. E eu penso “ainda estamos a tempo”, e digo-lhes que quando éramos pequenos, na escola, pintávamos um pisa-papéis para o Dia do Pai. Que o avô Zé ainda tem os dele, alguns dentro de gavetas e outros espalhados pelo espaço ainda livre da escrivaninha.
Elas riem ao ver as folhas agitadas, repetem “pisa-papéis” como quem experimenta uma palavra estranha, pedem para fazer uma pausa nos trabalhos e enfiam-se dentro de água.


Agora é noite, e estão cansadas de tanto brincar. Se tudo correr bem, vão adormecer sem dar (muito trabalho)
É bom, hoje foi um dia bom.
Amanhã, vamos trabalhar de novo fora de casa.

Dia 56+21


Hoje acordaram cedo, ainda antes das oito. Fizeram quase todos os trabalhos, deram abraços e mimos.
Ao almoço, nuggets de frango feitas pela mãe. “Que delícia, tão bom!”

À tarde, com o calor, começa a impaciência. Que está quente, que está calor; que querem ir para a piscina, que querem molhar os pés.
Digo que “a grande só quando o papá chegar”, e encho-lhes a piscina pequena.
Vestem o fato de banho, Mariana molha os pés. Margarida senta-se na água, puxa o Mimos para ela, ri quando ele foge a sacudir o pelo.
Caminham de um lado para o outro, naquela quase tina com dez centímetros de altura de água, “e a grande, mãe, a grande?”, “só quando o papá chegar”.
Magui pede o meu telefone, envia uma mensagem ao pai. “Vem depressa, por favor, é a Margarida”. Na assinatura, um cão com corações. “É o Mimos, para o papá saber que o cachorro também está com calor”.
Dez minutos depois, “Mãe, e a piscina?”, “esperem até o papá chegar”.

E depois de duas horas de pedidos, e lágrimas e quase birras, o pai chega.
Monta-se a piscina, enche-se de água.
“Podemos entrar?”, “claro que não. A água está fria, é do furo, tem de aquecer. Amanhã.”
E a loira cruza os braços, e a morena gere a frustração.
“Não é justo, está calor”.
Pai inflexível, “hoje não”.
Vai para dentro, e regressa com baldes de água quente.
Um, dois, três, muitos.
“O que fazes?”, pergunto.
“Para elas ainda aproveitarem um bocadinho”, responde.
É assim o meu amor, é assim o pai das minhas filhas.
Finge-se de mau, finge que não liga, finge que não quer saber.
Mas faz dez viagens da cozinha até à varanda – carregando baldes cheios de água, no fim de um dia de trabalho – só para as fazer felizes, só para as ver sorrir ❤.

Dia 56+17, 18, 19 e 20


Já passaram 76 dias. Ou 56+20, se continuar a contar o dia 57º dia como aquele que marca o nosso pequeno sair do desconfinamento, quando fomos levar o Mimos à vacina.
Nestes 76 dias – e não preciso fazer um grande exercício de memória, que as emoções continuam tão vivas que há dias em que é complicado lidar com elas – vou alternando entre várias fases.

Na primeira semana foi o medo que tomou conta. Voltar à caverna, encontrar refúgio; respirar devagar, como se estivesse a racionar o oxigénio; ter medo do que não se conhece e temer aquilo que já era conhecido.
Foram dias e noites muito complicados de gerir: não querer passar às meninas estas sensações foi um esforço grande, exigente, deixou-me de rastos e com a cabeça desfeita. Nessa semana, à noite, quando a cabeça se perdia em cenários escuros, tomei calmantes para conseguir desligar, sair da espiral de medo e conseguir dormir.

A segunda semana foi o medo de não ter o que comer. Nada faltou, felizmente, mas as imagens de filas à entrada dos supermercados, o ver na TV as prateleiras vazias, encheu-me do segundo medo: tenho abrigo, não tenho alimento para os meus. Cheguei a sonhar que não tinha cenouras para fazer sopa; estupidamente (ou não, chama-se não desperdiçar) fazia render os alimentos como as nossas avós faziam render o peixe: a parte melhor para os nossos, o que sobra para nós. E foi este receio de não ter frescos, cenouras, batatas, que me levou a sair pela primeira vez de casa, para ir ao minimercado.
Chegada a casa, com o congelador cheio, descansei.
A gestão continuou a mesma, aproveitar e não desperdiçar, mas ver que o agricultor continuava a sair para o campo, que o peixe continuava a ser pescado, deixou-me mais aliviada. Foi o primeiro passo para sair do medo: tinha casa, tinha alimento. Necessidades mais básicas asseguradas, o resto era acessório.

Nos tempos que se seguiram veio a saudade. Saudade do DeCa e das pessoas, saudade das rotinas, saudade das professoras das meninas, saudades de as deixar na escola e de as ir buscar ao final do dia. E saudades, imensas saudades da família. Foram os dias de whatsapp com os avós, os dias do olá do outro lado do muro. Uma saudade avassaladora, que esmagava. Saudade de abraçar, de estar perto, saudade de pedir e de dar colo.
E se as fases anteriores foram difíceis fisicamente (o medo tolhe os músculos, estar constantemente à espera que algo aconteça cria tensão, cansa), esta foi pesada no coração. Andei triste. Desanimada. Vivia um dia a seguir ao outro, contando-os mas sem os viver muito, como quando temos um bebé que chora durante toda a noite e só pensamos “isto vai passa. aguenta, isto vai passar”.

Depois, aos poucos – e com a primeira ida a casa da minha sogra, com a primeira ida a casa dos meus pais – este sentimento de saudade acalmou. Percebi que o telefone não substitui nem de longe nem de perto o contacto; percebi que preciso de os ver, ainda que a dois metros de distância; que preciso de os ver rir, de os ouvir reclamar com o estado das coisas. E ainda que a saudade não tenha passado mas apenas acalmado, deixou de ocupar tanto espaço. Sei que não posso estar lá quando quero, cada ida é articulada com irmãos para não estarmos todos ao mesmo tempo no mesmo espaço, mas é mais fácil de gerir.
A cada duas semanas estou com eles, e isso é algo pelo qual vale a pena esperar.

Ao longo de todos estes dias, estes 76 dias (porra, tantos) com tantas variáveis, a Mariana e a Margarida são as minhas constantes.
São o meu chão e o meu telhado, as minhas raízes e as minhas folhas.
Se eu um dia chorei ao pensar que ter filhos não era coisa que me estava destinada, agora fico de alma quente a cada gesto, a cada palavra, a cada mimo.
Ser mãe delas continua a ser tão fascinante como no primeiro dia; continuo a gostar e a viver cada minuto, cada segundo. Dou-lhes um beijo antes de dormir, gesto que repito desde que nasceram. Canto-lhes bom dia quando acordam, coisa que faço desde o primeiro dia.

Destes dias que passamos em casa, daqui a uns anos, sei que não vou recordar o medo, a angústia, a apatia, a saudade. Sei-o, porque vivo as emoções negativas muito intensamente, tão intensamente que elas gastam-se e perdem a cor. Um dia, assim o espero, este turbilhão será pouco mais que uma lembrança.
Mas o estar com elas, todo o dia e todos os dias, ouvi-las, dar-lhes colo, pentear-lhes o cabelo, estar junto e abraçar, isso é coisa que vou guardar para todo o sempre.

Dia 56+16


Sexta, dia normal.

O despertador tocou às sete, levantei-me, fui até à sala e desliguei-o. Depois, voltei ao quarto e enrosquei-me na Margarida (que fugiu a meio da noite para a nossa cama) e fiquei assim, durante meia hora, até o alarme soar de novo.
Não sei porque mantenho o toque das sete. Já foi preciso acordar mais cedo, já não é preciso roubar meia hora ao sono: o Mimos anda à solta, a telescola só começa às nove, só começo a trabalhar às oito. Mesmo assim, esta forma estranha de acordar aos bocados ficou.

A manhã correu bem. A telescola correu bem. A Magui fez ginástica. A Mariana terminou os trabalhos.O vídeo que a professora enviou, onde descrevia passo-a-passo uma experiência com água, fê-la entender o que é volume e o que é massa, quanto espaço ocupa a água e o espaço que ocupa o gelo. E eu penso com carinho nesta gente que ensina, que prepara fichas e faz vídeos, quando seria tão mais fácil ficar-se pelos mínimos. E continuo a pensar que, enquanto formos capazes e não enlouquecermos, esse esforço será correspondido com o nosso esforço.
Porque mesmo que chegue ao fim do dia estourada, mesmo que por vezes o tempo pareça que não dá para tudo, as miúdas continuam a aprender; continuam a gostar da escola; continuam a fazer os trabalhos. Elas não desistiram. E, por respeito a elas e a quem as ensina, nós também (ainda) não.
Temos agora uma garrafa de água no congelador, à espera de congelar. Se rebentar, a experiência correu bem 🙂

À tarde apanhámos sol. Aproveito as pausas que o corpo e a cabeça pedem e saio com elas para o jardim, para andar no baloiço. Mariana faz a roda, Margarida faz ioga, Mimos corre atrás delas, Riscas olha com ar de enfado.
Ao lanche, faço panquecas.
E porque hoje é sexta e o dia até estava a correr bem, despejo o iogurte para uma taça, junto-lhe doce de morango (que eu fiz!!!!!!!) e preparo um prato bonito.
E, sentada a trabalhar/a comer, como fazia antes disto tudo, constado que o modo sobrevivência está a passar. Que (re)começo a gostar das coisas bonitas, e não apenas das coisas funcionais.
Podia ter lanchado no balcão da cozinha, o iogurte do Intermarché no copo de plástico e o doce comido à colher diretamente do frasco. Mas não… hoje, não.

Não sei se é de ter começado a ver os meus pais (com máscara, do outro lado do muro, a dois metros de distância), se é por ter estado com a minha sogra, se é pelo arroz de ervilhas que ela trouxe, se é por estar sol ou por as hortenses começarem a abrir.
Mas depois de ontem ter ficado com o coração apertado, ao ler sobre máscaras e níveis de proteção, ao perceber que isto ainda não passou e que a realidade tão cedo não irá ser nem um pouco parecida com aquela que conhecíamos, hoje sinto uma energia diferente, uma força que vem das raizes.
Um estado de alma que sei que se aguenta, que é capaz de olhar o medo e dizer “eu sei, estás aí. e eu também estou”.