Trinta e sete

.  Ontem fiz 37 anos. Trinta e sete… E, como acontece com as coisas importantes da e na minha vida, pensei naquilo que poderia dizer e escrever sobre este assunto. Sobre o fazer anos, sobre o completar de um ciclo, sobre mais um ano de vida.

Mas recebi um e-mail. Que diz tudo. E que (devida mas ligeiramente editado) diz assim:

“Hoje fazes anos! E são as coisas más e as coisas boas e as coisas que encaixam ou vão encaixando.
Tiveste um bocadinho de tudo. Perdeste e soubeste como perder e voltar à tona, ganhaste talvez menos do que merecias, mas o que de bom te apareceu sabes que fizeste por o merecer. E em em todas estas coisas foste tu, mulher inteira e sempre mãe, que não é só bonita nos good-hair-days, que é uma fortaleza mas que sabe que às vezes é preciso fazer manutenção à muralha para se poder voltar.
Saber-me próxima de ti é um prazer, honra!, tudo. Das coisas boas que me animam e me enchem, és tu. Se te puder dar a mão, sei que sou útil e que já vale a pena sair da cama, nem que seja “só” por isso.
Gosto de ti, todos os dias. Parabéns, e amanhã já te aperto :)*”

E, tendo lido e sorrido com isto, não me apeteceu escrever mais nada 🙂

coisas que se dizem

.  Dizem que Deus, quando fecha uma porta, abre a janela. E que se choramos por termos perdido o sol, as lágrimas não nos deixam ver as estrelas.

Às vezes, a janela é tão pequena que só com muito trabalho, à força de braços e de vontade, se consegue alargar o suficiente para podermos ver o sol. E, como do esforço e da luta, os nossos olhos ficam toldados de lágrimas (seja de suor ou de cansaço), nem as estrelas conseguimos ver. Não vemos nada. Estamos apenas cansados.

Nestas alturas, vale-nos a mão que nos limpa o rosto, que se suja para nos tirar – a nós – aquilo que nos impede de ver.

A essas “mãos”, um grande obrigada.

perguntas sem resposta

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– Gostas de mim?
– Sabes que sim.
– Porquê?

Ah, este nosso hábito de classificar, codificar e avaliar tudo em palavras. As coisas – objetos, sentimentos, criaturas – só existem quando uma designação lhes é dada, como se as coisas e os objetos e os sentimentos se resumissem e definissem pelas letras que compõem o seu nome.
Precisamos de explicação para tudo. Tudo tem de ter uma razão, um sentido, analisado com um método. Um “sim” não nos basta, e um “não” tem de ter um porquê. Aquilo que não conhecemos perturba-nos, aquilo que não sabemos como definir tira-nos o equilíbrio.
Precisamos de estabelecer uma relação entre isto e aquilo, saber onde tudo fica, para que o cérebro – que se habituou à lógica e à matemática e à razão que o coração desconhece – compreenda, perceba, classifique, para que assim tudo faça sentido.

E dizemos que é amizade ou mais que isso, que é amor ou menos um pouco, que é paixão mas não tão quente quanto. E isso cansa. E como acreditamos – pela experiência que achamos ter – que as palavras perdem o sentido quando as dizemos muitas vezes (experimentem dizer céu vezes sem conta, e perceberão o que quero dizer com isto), evitamos repeti-las e guardamos, para quando e quem merece, aquelas (palavras) que nos são caras.

Ou então codificamos. E o amor é filial, ou paternal, ou conjugal. E temos melhores amigos, e amigos de ocasião. E tentamos – nesta ânsia insana de designar e codificar tudo – criar escalas de valores para, num olhar mais ou menos demorado, sermos capazes de perceber onde nos encontramos. Onde colocamos o outro relativamente aos outros. Onde fica aquilo que sentimos e que, ainda não sendo amor, também já não é amizade.

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– Gostas de mim?
– Sim.

Desta vez não perguntei porquê. E assim fiquei feliz.

A história de dois Miguéis

.  Neste final de mês de Abril, deste Abril frio e chuvoso, morrem dois miguéis. Um na semana passada, outro – se calhar – hoje. O primeiro um grande político (dizem aqueles que o seguiam), um grande homem (dizem aqueles que o admiram), um grande filho e um grande irmão (dizem aqueles que o amam). O segundo, um marido que – aos poucos, como acontece com o melhor do bem e o pior do mal – vai perdendo, nos dias e no coração, a companhia da mulher que ama.

Não há palavras – ainda que eles o tenham tentado – capazes de descrever o vazio que fica quando o nosso amor se vai. Não há letras suficientes, nem frases mais ou menos compostas, que possam dizer – a quem não sabe – o que significa perder alguém a quem se quer bem. Ou se sabe, ou não. Tão simples quanto isto.

Uns e outro terão de aprender a viver com a saudade fácil, e a difícil. A fácil, revelar-se-á nas lágrimas e nos sorrisos que a recordação do outro (que se foi) traz quando se a chama. A difícil… essa é a pior. É a saudade daquilo que não chegou a acontecer, dos encontros que não se fizeram, dos beijos que não se trocaram, das mãos que não se apertaram, porque a vida fez outros planos e não deixou que os planos e as vidas fossem aquilo que deveriam ser. É a saudade mais dolorosa. A saudade que aparece quando menos se espera, quando já se pensava que estava tudo em paz, quando – naquele momento mais ou menos forte, mais ou menos frágil – se sente e sabe que o outro alguém deveria estar ali.

Numa noite igual a esta, há muitos anos atrás, perdi um amigo.

E (depois de tanto tempo passado, neste final de mês de Abril) ainda sinto saudades daquilo que devíamos ser hoje.

o que podemos aprender com os livros

. Há dias, no Facebook, um amigo (“amigo/amigo”, não “amigo/friend”) publicou o link para um post onde fala sobre um dos filmes mais bonitos e delicados que já vi: Malèna, de Giuseppe Tornatore. Como diz o João, e bem, há mais beleza no filme do que aquela que é evidente aos olhos: tem Monica Bellucci, sim, mas tem mais do que isso. Tem comunidade, tem sociedade, tem preconceito, tem ascensão e queda, tem vida – tem tudo. Um filme daqueles que nos marcam, e onde podemos aprender mais do que a simples história que ele conta.
Como acontece com tantas coisas na nossa vida.

Nas férias da Páscoa, entre limpezas e arquivos de coisas passadas, arrumei livros que já li e já não leio mas que, de uma forma ou de outra, fazem parte daquilo que me fez ser. E, numa consulta que não demorou mais do que um folhear de páginas – porque os livros que se conhecem são como parte de nós, e sabemos, em segundos, onde encontrar o que de nós é – encontrei frases e linhas que são, na verdade, mensagens maiores que as palavras que as compõem.

“- Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa? Minha ou dele?
– Era Vossa – respondeu firmemente o principezinho.
– Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar – prosseguiu o rei. – A autoridade baseia-se nisso”
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Muitas vezes somos nós o nosso próprio inimigo. Exigimos demasiado, projetamos em nós (todas) as forças que cobiçamos e admiramos nos outros, como se (todas) as forças dos outros se pudessem reunir, sem conflito nem dor, dentro de uma só pessoa.
Querer ser mais é a força impulsionadora para crescer. E admitir que o impossível existe é o princípio para se saber ser mais naquilo que se é.

“- Boromir dirá tudo quando chegar. Quando chegar, dizes! Eras amigo de Boromir?
Pela memória de Frodo passou, nítida, a recordação do ataque que Boromir lhe fizera, e por isso hesitou um momento. Os olhos de Faramir, que o fitavam, tornaram-se ainda mais duros.
– Boromir era um valoroso membro do nosso grupo – respondeu Frodo, por fim – Sim, eu era seu amigo, pela minha parte.”
J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis: As duas torres

Na vida, diferentes pessoas têm diferentes objectivos e diferentes caminhos a percorrer. Os sentimentos, quando os há, valem pelo valor que têm – muito, ou pouco, dependendo da força com que os alimentamos. As amizades, como os amores e as lealdades, não são mais verdadeiras só porque são mútuas, nem mais falsas porque só têm um sentido. São percursos, estradas, paths que nos levam de um ponto ao outro da nossa existência. E só isso basta para as tornar reais.

Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?
Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.
Outras vezes, penso: “Uma distração e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guizinhos se transformam em lágrimas!..

Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principezinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa…
Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Copo meio cheio, meio vazio, estrelas a rir ou a chorar, tudo depende não (só) do nosso ponto de vista mas da forma como vemos as coisas. Como e onde nos focamos. Aquilo a que damos importância. A mesma tarefa, o mesmo projeto, a mesma empreitada, podem ser grandes ou pequenas, alcançáveis ou impossíveis – tudo depende da forma como decidimos olhar para ela, da lente da alma que decidimos colocar à frente do coração.

“- Só me pôs nos Gryfindor – disse Harry numa voz débil – porque eu pedi para não ir para os Slytherin.
– Exacto – disse Dumbledore a sorrir – E isso torna-te muito diferente de Tom Riddle. São as tuas escolhas, Harry, mais do que as tuas capacidades, que mostram quem de facto és.”
J.K. Rowling, Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Dizem que todos nascemos iguais. Dizem que todos temos as mesmas oportunidades. Dizem que todos podemos escolher.
Todos somos tudo… a diferença está na forma como, sendo e podendo ser tudo, queremos ser grandes naquilo que nos faz ser únicos.