bem aventurados os mansos

Sou pelo bem comum.
Pelo dar um passo atrás para que todos possam dar um passo em frente.
Sou pelo ‘se faz favor’, pelo ‘com licença’ e pelo ‘obrigado’.
Num mundo que se atropela, que grita, que vive ao segundo, que reage e que partilha, sou pelo silêncio.
Num universo em fast-forward, sou pelo pause.

[borbulho . agito-me . fervo . inspiro . acalmo . prossigo]

Gelo fino protegendo o mundo da corrente da água, a mansidão faz-se em camadas.
Ao longo do tempo. Ao longo da vida.
É uma maratona, não um sprint.
É uma opção de vida, não uma fraqueza. É caráter, não ausência dele.

Bem Aventurados os mansos, porque um dia herdarão a terra.
É que até lá, os outros – os agitados, os sôfregos, os belicosos…
… já terão perecido todos.


[“Bem aventurados os mansos” é um grito (manso) contra os sinais exteriores de vontade. Contra o imperativo do barulho, do ruído, da proactividade estridente. É um manifesto, uma entrada no “press-pause”. “Bem aventurados os mansos” foi publicado originalmente na ©Obvious em Dezembro de 2012. Cinco anos depois… continuo fã do pause… 😉 ]


minha linda Mariana

.  Há dias, num outro espaço, a mamã escreveu sobre a importância de deixar registado – fosse em texto, fosse em desenhos – aquilo que somos e aquilo de que gostamos, para que um dia outros nos pudessem conhecer e entender melhor a forma como víamos e desejávamos o mundo.

Minha linda Mariana, o avô Carlos está doente. O avô do chupa-chupa, do chocolate, o avô do trator. E sabes o que mais custa agora, minha linda Mariana? Pensar que, um dia, só vais saber como ele era, o que ele gostava, a forma como ele tratava de nós todos, pelos registos que nós te passarmos. Porque, minha linda Mariana, o avô Carlos está doente e pode não voltar a ser o avô que tu conheces hoje. O avô que te faz correr e saltar quando ouves o motor do carro, ou o ronco do trator. O avô que tem sempre um chupa para ti, e que te adora mais que ao mundo.

Sabes, minha linda Mariana, é nestas alturas que a mamã percebe que pode escrever muito, pode escrever bem, pode escrever mal, mas que não há palavras nem registos nem o que quer que seja que substituam aquilo que as pessoas são e que nos fazem ser.

O teu avô, Mariana, é um pai. Para ti, para o papá, para a mamã. Está doente, e agora só podemos esperar que fique bom, para depois poder ficar melhor.

Pede ao teu anjinho da guarda que vele por ele, sim?

inquietudes


.  Acordei inquieta. Não sei explicar porquê, não quero pensar nisso, não tenho vontade de tentar saber. Acordei inquieta. E é tudo.

O António falava, como poucos o souberam fazer antes ou depois, deste estado que nos enrola e se enrola no peito e traz, aos dedos e aos lábios, a vontade de fazer algo que ainda não sabemos bem o que é. Uma vontade de olhar para o lado, de tentar ser super-homem e ver mais além do que as paredes e as nuvens que nos limitam o horizonte.

Inquietude.

Começa no peito, não é? Assim como uma coisa. Orgânica. Feita de vontades e desejos daquilo que ainda não se sabe mas que já se sente.
E depois passa para os ombros. Gosta das curvas, a inquietude (talvez seja por isso que nós, mulheres, somos mais inquietas e inconstantes que os homens: amamos a curva e a descida súbita, como se – na vertigem da curva e da descida – conseguíssemos gritar aquilo que nos consome).
E passamos a mão pelo cabelo, e detemos os dedos no pescoço (como a carícia que desejamos não sabemos de quem), e mordemos os lábios por dentro enquanto o nosso rosto – e o nosso corpo – se mantém sossegado escondendo, nesse sossego, a agitação que sentimos por dentro.
Agitação. É isso.
Será?

(cerro as mãos com força. nunca, mas nunca, deixarei que a inquietude que me arde passe para as teclas que tenho debaixo dos dedos)

Respiro fundo. Respiramos. Respiremos, portanto.
E elevemos os olhos com a tranquilidade que sabemos ter quando é preciso, e respondamos com sorrisos, e sejamos afáveis e cordiais.
A inquietude, essa – aquela que se enrola no peito na vontade de fazer ainda não se sabe o quê – fica. Sempre. Como o segredo que guardamos e que nos faz, a nós mulheres, ser diferentes de todos os outros.

Preview in new tab

(David Fonseca. Um outro inquieto. Aposto)


[num livro que li, diz-se para mantermos apenas aquilo que brilha, aquilo que nos traz alegria. “Inquietudes”, não sendo um post do coração, foi um post de emoção. escrito num daqueles momentos em que só nas letras seria capaz de acalmar a agitação. “Inquetudes” é um post de Maio de 2012 e está aqui porque é a super-nova, o post que catalizou tudo, o post que deu origem a conversas e abriu olhos a outras possibilidades. “Inquietudes” foi publicado originalmente na Obvious em Maio de 2012, e é a prova que quando consigo canalizar o caos que cresce em mim… coisas giras podem acontecer 🙂 ]


da educação dos filhos (vista pelos olhos dos outros)

.  Se sou firme, não tenho paciência. Se sou paciente, estrago com mimos.

Se não me aflijo, sou indiferente. Se me preocupo, é porque faço drama.

o que quer que faça, nunca estou errada. mas também nunca estou certa.há sempre alguém que faz melhor, há sempre alguém que faz mais cedo, há sempre alguém que também passou por isso e que por isso mesmo o que passo agora não é nada. há sempre alguém mais perfeito. há sempre alguém que sabe tudo. há sempre alguém que sabe mais.

e eu não quero ser perfeita. quero ser eu. quero ser mãe. e quero ter espaço para poder querer ser.

25 de Julho

.  Hoje é um dia muito especial: há três anos, mais ou menos a esta hora (meio dia e cinco) a Mariana entrava nas nossas vidas. Ainda nada de certo, apenas uma esperança, um desejo que – desta vez – as coisas corressem como o nosso coração desejava.

Foi uma entrada discreta, partilhada com não mais de cinco pessoas, um segredo cheio de medo e de esperança. A vida – essa malvada – já nos tinha ensinado que ainda que Deus queira e o homem sonhe, às vezes a obra não nasce. A vida – essa que magoa – já nos tinha convencido que teríamos de nos habituar a viver assim, juntos mas ao mesmo tempo sós, completando com coisas e viagens aquele espaço que pertencia, por direito, àquela que nos fazia falta.

Lembro-me de tudo, como se fosse ontem: da viagem ao som da mesma música da outra vez (ai os homens, e a sua falta de tacto), da conversa que já conhecia… e de ver aquela luz, pequenina, a brilha no monitor ao mesmo tempo que o Dr. Teixeira dizia sorrindo “melhor é impossível”.

E, depois, o regresso a casa. A segurar no ventre como quem carrega um tesouro. E os dias seguintes, catorze, cheios de uma racionalidade que – soube-o enquanto a sentia – não convencia ninguém. A espera, longa. E o olhar em volta e perguntar “para quê tudo isto”.

E, depois, a notícia que vinha aí alguém. E, depois, o medo de não acreditar. E, por fim, o bater do coração.

Se tiver de escolher O dia em que me fiz eu, em que fui feliz como nunca fui antes nem depois, foi naquele dia em que, num outro monitor e com outro médico, ouvi o coração da minha filha a bater pela primeira vez. “Há coração? O coração bate?” “Então não há! Ora ouça!”

E o tumtumtumtum, aquele som maravilhoso que ainda hoje, quando o recordo, me faz chorar sabendo porquê: a Mariana estava ali. O nosso amor, do nosso amor, tinha finalmente encontrado o caminho para as nossas vidas.

Muito aconteceu depois. Coisas boas, coisas menos boas, coisas que magoam e que, meses passados, ainda causam dor. Mas, por muita coisa que passe, e muita coisa que viva, nunca esquecerei aqueles segundos de felicidade em que soube, finalmente, que o nosso sonho era real.

Parabéns, Mariana. Ainda que não o saibas, e ainda que não entendas, foi nesse dia que te comecei a amar :).