_ e podemos, finalmente e para já, respirar 🙂
Categoria: coisas minhas
se eu um dia me der ao trabalho de contar os espaços onde deixo coisas, os dedos de uma mão não chegarão para os apontar. aqui estão os textos d’a caixa, d’a gaveta, do café com natas e de outros sítios por onde vou experimentando esta coisa tonta de usar palavras
____________________
doze dias
. [12 de Janeiro de 2012]
O novo ano já tem doze dias. Doze, uma dúzia, duas mãos mais dois dedos, metade das horas que fazem um dia, o mesmo número dos meses do ano. Os dias que, segundo o povo, prevêem o tempo que vai estar de Janeiro a Dezembro.
Doze.
E o que fiz eu nestes doze dias? Pouco ou nada, ou muito – depende da forma como quiser encarar as coisas. Se pensar nestes dias como um estágio (não daqueles em que nos fazem arquivar documentos e servir cafés quando devíamos estar a desenvolver aplicações ou a construir a base de uma profissão, mas daqueles que os jogadores de futebol – essas figuras de relevo que são aquilo que metade dos rapazes do mundo gostaria de ser um dia – fazem antes de um jogo importante (ou não importante, não importa, que importantes são eles, esses jogadores, e o resto nem interessa) foram bastante produtivos.
Mas já me perdi. Do que é que eu falava? Ah, sim, dos doze dias que o ano já tem.
Doze.
Caramba… se eu tivesse incluído nas resoluções de ano novo (que não fiz) a resolução de escrever uma página da tese por dia, já teria doze páginas. Ou melhor, já teria mais doze páginas, a adicionar aos conjuntos de doze que já tenho escrito. E, agora que penso nisso, devia ter feito essa resolução. Essa e muitas outras, daquelas que incluem cortar no café, fazer ginástica, deixar de escrever com tantos parênteses, comer mais brócolos e passar a usar vestidos.
Mas não tive tempo (as últimas doze horas do décimo segundo mês do ano passei-as a tentar controlar a febre da minha filha), nem pachorra. As resoluções tomam-se no dia a dia, taco a taco, e não nas últimas horas de um ano que, dali a pouco, vai deixar de ser presente.
Perdi-me de novo, não perdi? Pois.
Estava a falar do ano novo, e dos doze dias que já passaram. Do meu estágio de doze dias. Dos dias em que fui mãe, e enfermeira, e dei colo e mimo; dos dias em que fui filha e fiz o que as filhas fazem, que é conversar com os pais e fazer-lhes companhia, provando-lhes (como se isso fosse preciso) que continuam a ser uma das coisas mais importantes da nossa vida; dos dias em que fiz bolachas e biscoitos e percebi que até posso ser incapaz de fazer um bolo, mas que as minhas bolachas – feitas de farinha e mimo e risos da minha filha – são as mais deliciosas que já comi na vida.
Doze dias.
A partir de hoje, o décimo segundo dia do primeiro mês do ano de dois mil e doze, tenho um lugarzinho no “lounge” do Obvious. Ainda tenho de decidir o nome desse espaço – gavetas e caixas já tenho, e estou com vontade de ter uma coisa nova – e quero fazê-lo até à décima segunda hora da segunda parte do décimo segundo dia deste novo ano.
Se calhar vou-lhe chamar “doze”.
O que dizem? 🙂
sobrevivi
. Consegui sobreviver ao dia de hoje, o quinto de um conjunto de dias pautados por febres, choros, apatias e desconsolos. Um dia que, para além das febres e dos choros e das apatias e dos desconsolos, teve ainda a pesar a angústia do resultado de um exame. Uma manhã terrível, em que só queria fugir para um espaço da minha mente onde doenças não existissem, células não se alterassem e a saúde não fosse um bem mas um direito instituído.
Passou o dia de hoje. A Mariana está melhor, não come mas quer brincar; os exames da minha mãe não acusaram nada, e resta apenas mais um para podermos, até nova ameaça, descansar e não pensar em coisas más.
Ontem chorei, de cansaço e de angústia, com o medo de poder perder quem amo mais do que a mim própria. A minha mãe ensinou-me a ser gente, ensinou-me a ser mãe, faz parte da minha vida. É por ela que respiro fundo, foi por causa dela que aprendi a calar e a não ferir, com respostas, aqueles que preferem agredir com palavras.
Cada dia que passo agradeço a escolha que ela fez – que começou antes de eu nascer – e a forma como me fez “gente”. Tenho orgulho em ser sua filha, e de ter uma filha que é sua neta. Digo-lhe isto todos os dias (por muito cansativo que seja de ouvir), e não guardo para ocasiões especiais o beijo que gosto de lhe dar ou o “gosto muito de si” que (sei) ela gosta de ouvir.
Sobrevivi ao dia de hoje. Mas estou fisicamente exausta… e muito, muito cansada.
a culpa é dos filmes
. Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. A reserva que instintivamente se coloca nos relacionamentos – aquela que vai sendo negociada, gerida, até chegar à entrega confiante – deixou de ter sentido com a chegada deste ser pequenino e exigente.
Ao longo da vida – por muito curta que ainda seja – vamos acumulando experiências que, de uma forma mais ou menos clara, influenciam a maneira como nos comportamos em relação aos outros. A experiência da perda, por exemplo, pode-nos levar a erguer barreiras aos sentimentos mais intensos: tomámos consciência da fragilidade da vida, o que amamos pode-nos ser tirado. E o cérebro aprende, e a alma guarda. E tornamo-nos defensivos. Cautelosos. Tristes. E, como um caminho que ainda não conhecemos mas achamos que já sabemos onde vai terminar, recusamo-nos a percorrer a estrada potencialmente cheia de alegrias. Mais vale não amar do que sofrer por amar demais, não é?
Foi então que a Mariana chegou. E ensinou-me – aos bocadinhos – que viver com medo não é tão romântico quanto parece nos filmes. Que a consciência do efémero não é sempre sinal de maturidade ou experiência, mas que pode ser uma cadeia, uma zona de conforto desconfortável. Ela, pequenina, foi-me vencendo aos poucos. E foi-me ensinando a confiar nela, e a acreditar que coisas boas acontecem.
Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. E sabe bem amar assim.
medo
. Há dias atrás uma amiga disse-me que “ser mãe é ter medo. sempre, para toda a vida”. Esta amiga tem 28 anos, ainda não é mãe, mas aprendeu da mãe – dela – o sentimento de recear as ameaças ao bem-estar e felicidade de alguém que nos enche a vida de forma irremediável.
Desde que pensei a Mariana que tive medo. Medo que ela não passasse disso, de um pensamento; medo que ela não fosse uma confirmação; medo que as coisas não corressem bem; medo que eu não corresse bem. Depois, aos bocados – e recorrendo àquele lado racional, forte, sereno, que me orienta quando me desoriento – consegui sufocar esse medo, empurrá-lo, enfiá-lo numa caixa para que não me assombrasse e ensombrasse a felicidade.
Mas esse medo, fechado na caixa, é como aqueles bonecos de mola: está lá, compactado, à espera de uma folga para se poder soltar. E, de vez em quando, salta. E, nessas alturas, luto de novo para não me deixar submergir pela ameaça do que ainda não existe e do que pode nunca existir (um acidente, uma doença).
“Um dia, quando fores mãe, vais perceber”, diziam-me. Agora sou mãe. E percebo.