a diferença entre ser inteligente e ser esperta

.  há uma diferença entre ser inteligente e ser esperta.

independentemente dos diferentes tipos de inteligência (académica, emocional, etc etc etc), do meu ponto de vista todos partilham um atributo comum: são assentes na gestão, na reflexão, na consciência. têm a ver com organização, método, limpeza. a esperteza, pelo contrário, tem a ver com sobrevivência.

enquanto que a inteligência é um dom, a esperteza – seja ela saloia ou de primeira classe – é uma competência: podemos nascer sem ela mas, a qualquer altura da vida, podemos investir e trabalhar até ficar esperto. ficar, não ser. é-se inteligente, aprende-se a ser esperto.

os meus pais sempre trabalharam no sentido de desenvolver, em cada um dos filhos, o dom da inteligência (intelectual, emocional) com que cada um nasceu. deviam, pelo contrário, ter-nos ensinado a ser espertos.

os meus pais, quando eram crianças, eram pobres. a minha mãe, em particular, era muito pobre. aos dez anos teve de saír da escola para ir trabalhar (chamava-se “servir”) para casa de desconhecidos e, desta forma, poder ajudar a família. aos três filhos – eu, o meu irmão e irmã – ensinou sempre o valor do trabalho e do esforço, e crescemos com a consciência de que tínhamos o privilégio de estudar e crescer com coisas e experiências que ela nunca teve.

nunca recebemos – NUNCA – quaisquer recompensas ou incentivos por termos boas notas. sempre nos exigiu o cumprimento das tarefas domésticas e o respeito pela hora das refeições mesmo quando estávamos em época de exames ou provas. ensinou-nos o valor do tempo, da organização, do definir prioridades. ensinou-nos que não nos devemos vender por cargos, por posições, ensinou-nos a andar de cabeça levantada por não devermos nada a ninguém.

são valores importantes, que ficam. a nossa vida sempre se regeu pela inteligência, pelo respeito pelo outro, pela dignidade. ainda hoje somos incapazes de colocar um papel no chão, nem que seja preciso andar dez metros até achar um caixote do lixo. ainda hoje damos lugar a pessoas de idade, mesmo que elas não o peçam. ainda hoje pedimos “por favor”, dizemos “com licença” e “obrigada”.

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os meus pais sempre cultivaram, em nós, o dom da inteligência.

acho que, agora, está na altura de aprendermos a ser espertos.