Dia 30, Sexta-feira Santa

. Acordei uns minutos antes das oito, uma hora antes de todos.
E ainda antes de beber café, saí para o jardim.

A calçada brilhava com a chuva, espelhando o céu ainda cinzento,
o ar a cheirava a frio, e havia um cão a correr no jardim.

Foi diferente, despertar sem café.
O ar frio acorda, e a névoa – a que lembra filmes de vikings e que se entranha na roupa e nos cabelos – obriga o sono a render-se a afastar-se devagarinho.

A manhã correu como correm as manhãs destes dias de férias delas:
fazer pequenos almoços, preparar almoços.
“Margarida, já comeste?”, “Mamã, quero mais cereais”

Almoço, limpar, arrumar,
fingir que não é feriado e trabalhar mais um bocadinho.

(três horas. Sexta-feira Santa.
Não tenho rezado, apenas consigo fazer silêncio,
mas estas Sextas são diferentes – sempre foram.
Na celebração via YouTube, panos vermelhos cobrem os santos da igreja que continua a ser a minha.
E entre os curtos silêncios que separam uma leitura da outra,
é possível ouvir o som dos pássaros que (adivinho) continuam a fazer ninhos naqueles beirais.
“Não beijar filhos e netos é agora sinal de amor”, ouço.
Nós, que sempre gostámos de procurar o abraço e o colo dos outros,
estamos agora privados disso.
E, nas imagens que chegam daquela igreja vazia de gente,
quase se consegue sentir a solidão da sexta-feira que se tornou Santa)

Um barulho lá fora, gargalhadas sinceras, uma filha e um cão.
E percebo que esta janela é a imagem que guardo deste período em que devemos ficar em casa.
Não é uma janela da alma, é uma janela apenas, mas é por ela e através dela que o mundo me chega todos os dias.

Um dia ora cinzento e húmido, com névoas que lembram os filmes de viking,
ora com vento e chuva forte, ora com sol.

Ora com uma filha, e um cão 🙂


Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado.