. Durante anos a Páscoa foi celebrada em casa do meu avô.
Depois, quando a Páscoa deixou de ser “à segunda-feira”, passámos a celebrá-la em casa.
E era o início de tarde a tentar ouvir as campainhas, e era o João a passear com um sino,
e era o meu pai a ir ler ou falar com o Sr. Francisco,
e era todos a regressarmos à cozinha para comer o folar que a Alice tinha trazido depois da Vigília Pascal.
Para sair, passados minutos, a correr para o portão e a gritar “vem aí, vem aí!!”.
E havia sempre alguém na casa de banho
e havia sempre muita gente e pouco espaço
e havia sempre o meu pai a cantar “Ressuscitou, Ressuscitou!”
enquanto a minha mãe dizia “Tozé, a cruz já está cá dentro”.
E era a Bênção, e o beijar da cruz,
e o “então, ainda vos faltam muitas casas?” e o “até pró ano, até pró ano”.
Depois era regressar à cozinha, voltar a comer pão doce com Castelões e beber Vinho do Porto, com aquela sensação de “Páscoa feita”.
Desde que vim para a Branca que a Páscoa é em casa dos meus sogros, ou da avó do Gonçalo.
A custo e com tempo, consegui convencer quem precisava ser convencido que queria que a visita viesse cá a casa.
Que não valia a pena, que já beijávamos a cruz em outros lados e ainda tínhamos de ir a Estarreja.
E eu insistia. E tanto insisti que convenci.
E o Domingo de Páscoa era passado em corrida,
primeiro lá, depois a correr para cá, todos enfiados num carro
enquanto quem já tinha sido convencido fazia questão em vir a pé,
e era o acender da vela e levar uns tapetes para o quarto de trás para que,
à hora que o Senhor entrasse em nossa casa,
estivéssemos prontos para O receber.
Este ano não houve corridas.
Não houve carne assada, não houve folar,
houve um pão meio doce que eu fiz e que está bom para torradas.
Mas de manhã a Mariana pegou no postal que ficou do ano passado e proclamou a Bênção.
E eu, que estava a arrumar qualquer coisa, parei por minutos e respondi.
E naquele meu hall de entrada, onde hoje a cruz não entrou, fez-se Páscoa.
Senti Páscoa.
Para o ano estaremos todos juntos 🙂