Dia 43


. Hoje invertemos os horários e organizámo-nos de forma diferente.
Hoje, parei.

Estes dias têm sido de muito trabalho (muito), e ontem foi preciso deixá-las à solta.
Ontem assistiram à tele-escola no sofá, comeram cereais enquanto respondiam a perguntas, fizeram metade dos trabalhos, a outra metade ficou por fazer.
Ontem foi um daqueles dias em que quase não me levantei da cadeira, em que a cabeça doeu de tanto pensar, em que olhei para a página cento e tal de um documento/formulário e pensei “só faltam mais 52”.
Foi dia de massa e atum, a comida dos tempos de guerra. Não houve tempo para mais, não houve energia para mais.Hoje invertemos horários. Elas assistiram às aulas enquanto tomavam o pequeno-almoço, mas às dez e meia já estavam a fazer o que ficou de ontem.

E eu parei.

Estive com uma a fazer contas em prédios, e com a outra a corrigir a pronúncia do inglês.
E parei porque percebi que não há multitasking, há alternância rápida entre tarefas, e que esta alternância me anda a gastar por dentro.
Por isso, parei.

Parei, elas pararam, parámos. Fizemos as coisas com um bocadinho mais de calma.

Passo a passo, tempo a tempo.
E recuperou-se o tempo de ontem, e as tarefas ficaram feitas, e houve tempo para ir para o jardim correr e brincar.
Às cinco e meia aula zoom. Margarida num computador.
Às seis aula zoom, Mariana noutro computador.

E eu parei.
Durante a meia hora em que as aulas coincidiram, parei. Não tinha computador para mim. Parei.
E fui adiantar o jantar. E fiz silêncio uns segundos, e percebi que durante aquela meia hora em que as aulas coincidiram, elas estavam no mundo que é delas: o da escola.
Com as professoras, e os colegas, e os amigos.

E eu percebi que naquela meia hora, a mãe não era precisa. Havia uma professora de cada lado, a dizer sem palavras “eu agora tomo conta”.
E soube bem descansar aqueles 30 minutos.
Soube muito bem, durante 30 minutos, ser só eu: não mamã, não professora, não educadora, só eu.

E assim são oito e meia, e assim volto a trabalhar.
Invertemos os horários, jantámos muito mais cedo, elas brincam na sala com o pai. E eu posso trabalhar mais um bocado.
Trabalhar em casa, com filhos, não é pera doce. Nunca foi. Trabalhei ano e meio em casa, com a Magui bebé, e só conseguia avançar quando a colocava diante da televisão – esse mundo que os fascina e os desliga do mundo real.
Parei, na altura, porque cheguei ao ponto em que aquilo já me afligia.
E parei porque voltei a trabalhar.

Quem sai para trabalhar merece aplausos e elogios.
O Gonçalo, que não ficou um dia em casa, anda de máscara e de viseira, deixa as botas fora de casa, toma banho ainda antes de nos abraçar.
O casal que se reinventou, que antes vendia gomas e agora vende fruta à porta.
O homem que acorda cedo, e que antes das oito já está a trabalhar na terra que precisa de quem cuide dela.

E nós também.
Os que ficamos em casa a ser pais e professores, a ser pais e empresários, a ser pais e educadores.
Estes dias estão a ser uma prova de fogo para todos nós.
Mas acho, sinceramente, que com dias melhores e dias piores, até não nos estamos a sair nada mal.

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