O quarto das meninas está limpo, as paredes foram passadas a lixívia de alto a baixo. Roupa de cama mudada, tapete lavado, seco e de novo no seu lugar. Cortinas a cheirar a Skip e Comfort de sândalo e madressilva.
O resto da casa também está em ordem, mas hoje o quarto delas mereceu a atenção especial.
Os lençóis polares deram lugar aos de algodão, feitos pela avó Maria e que têm o tamanho certinho das camas delas. Os casacos foram lavados, secaram e estão guardados, e as camisolas mais grossas já não espreitam pelas gavetas.
É um cheiro bom, este. Cheiro a limpo, mas um limpo onde existe vida. Um limpo onde vai saber bem dormir.
Percebo nestes sessenta dias que ou mudei muito, ou então nunca me conheci bem. Dizia-me noctívaga, e agora acordo cedo para receber o novo dia; dizia-me gostar de dias de chuva, e agora o sol faz-me falta. Preciso dele, do sol, da luz, do calor. Pudesse, e voltava a refazer as janelas da minha casa, alargava-as de parede a parede. E são janelas de três metros… mas, nestes dias de estar fechada, parece que não chegam.
Por isso, antes do almoço, saí para apanhar sol. Estendi-me na varanda, Mimos a morder-me os dedos e as orelhas, e fiquei assim, a receber sol nas mãos e nos pés. Nunca, como até estes dias, percebi a falta que me faz o sol. A luz. O vento. O calor.
À tarde, o homem da casa foi cortar lenha. É assim a vida do campo, aproveitar o sol para acautelar os dias de frio. Mariana pede para ir ao monte, com o pai e a avó. Senta-se no trator que já foi do bisavô Rafael, que o avô Carlos conduziu vezes sem conta e que agora é (poucas vezes, muito poucas vezes) usado pelo papá, e pergunta se algum dia será capaz de o conduzir.
“Este não sei. Mas se quiseres conduzir um igual, é só teres idade e aprender”.
Crescem a saber que não há coisa que menina não faça. Que não há coisa que menino não possa fazer. O pai trata da roupa, a mãe da casa. A mãe arranja as torneiras, descarna fios, faz ligações em tomadas, o pai arruma a cozinha. Todos cuidam, todos tratam.Um dia será a vez delas tratarem, de serem elas a decidir.
Até lá, os pais cuidam.
E é bom – e sabe bem – cuidar de quem se ama.