a culpa é dos filmes

.  Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. A reserva que instintivamente se coloca nos relacionamentos – aquela que vai sendo negociada, gerida, até chegar à entrega confiante – deixou de ter sentido com a chegada deste ser pequenino e exigente.

Ao longo da vida – por muito curta que ainda seja – vamos acumulando experiências que, de uma forma mais ou menos clara, influenciam a maneira como nos comportamos em relação aos outros. A experiência da perda, por exemplo, pode-nos levar a erguer barreiras aos sentimentos mais intensos: tomámos consciência da fragilidade da vida, o que amamos pode-nos ser tirado. E o cérebro aprende, e a alma guarda. E tornamo-nos defensivos. Cautelosos. Tristes. E, como um caminho que ainda não conhecemos mas achamos que já sabemos onde vai terminar, recusamo-nos a percorrer a estrada potencialmente cheia de alegrias. Mais vale não amar do que sofrer por amar demais, não é?

Foi então que a Mariana chegou. E ensinou-me – aos bocadinhos – que viver com medo não é tão romântico quanto parece nos filmes. Que a consciência do efémero não é sempre sinal de maturidade ou experiência, mas que pode ser uma cadeia, uma zona de conforto desconfortável. Ela, pequenina, foi-me vencendo aos poucos. E foi-me ensinando a confiar nela, e a acreditar que coisas boas acontecem.

Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. E sabe bem amar assim.