vamos envelhecer juntos?


. Vamos envelhecer juntos?
Quero experimentar, contigo, todas as coisas boas e más que a vida tem. Saborear o mel e o fel, rir e chorar quando tiver(mos)vontade, cansar e descansar quando sentirmos que é preciso.

Vamos envelhecer juntos?
Quero fazer, contigo, uma vida que já não é a minha e também não é a tua. Quero usar “nosso“, “nossa“, quero que “sejamos“. Quero reservar lugar “para dois“. Quero criar um novo espaço, onde eu e tu sejamos nós.

Quero envelhecer contigo.
Para trocarmos, um com o outro, as declarações inflamadas dos 16 anos; e os amores certos dos 20; e as dúvidas e as crises dos 30. E a serenidade dos 50.
Quero ser, contigo, a avó dos nossos netos. Junto a ti, um rosto cheio de rugas.
E ver, nos teus olhos ainda que turvos, as memórias que guardarei no fundo dos meus.

Vamos envelhecer juntos. Um dia, três dias, cinco, um cento.
Duas pessoas que são uma e que se repetem, num futuro, nos passos pequenos dos que virão depois.

Quero envelhecer contigo. Queres envelhecer comigo?



[“vamos envelhecer juntos?” chamou-se inicialmente “declaração de amor”. no dia-a-dia, é fácil perder a noção daquilo que é importante; o olhar embota; as rotinas tornam vulgares o que é especial. Esta declaração de amor nasceu quando, ao olhar para a Mariana e para a bisavó – amparando-se mutuamente, uma segurando e segurando-se na outra – pensei (senti) que é assim que a vida tem de ser vivida. em longitude, ao longo dos dias, ao longo do tempo. “vamos envelhecer juntos?” foi publicado originalmente na Obvious, em Julho de 2012]


A vida à superfície


. Se um dia me pudesse sentar contigo, por dois segundos que fossem – tirados de um tempo que, não sendo já teu nem meu, seria por fim o “nosso” – dir-te-ia que nem tudo se mede e classifica, e que não é preciso uma tabela ou um dicionário para encontrar significado para tudo o que a vida encerra.

(a vida. um presente. o tempo presente. dois segundos que qualquer coisa que ainda não está resolvida e que, sem ser o que já foi nem o que ainda poderá ser, nos define durante um espaço e um tempo que não se voltam a repetir)

E se me pudesse sentar contigo nesse momento que seria só nosso, repetir-te-ia vezes sem conta que “o essencial é invisível aos olhos” e que, para saberes e te saberes, terás de ir mais fundo e olhar com mais atenção para tudo o que te rodeia e que – de forma mais ou menos acertada – te define e te contextualiza.

E dir-te-ia que a vida é mais do que esse conjunto de listas e categorias que adoras. Que nem tudo o que conheces e o que virás a conhecer pode ser guardado numa dessas caixas ou gavetas que carregas contigo e que te ocupam espaço, e que há coisas que, não tendo razão de ser, simplesmente são.

Deixa as listas. O que tens feito e o que ainda tens por fazer. Deixa os planos, e os esquemas, e as normas e as condutas. Deixa. Deixa-te.

Aproveita estes dois segundos de presente, tão únicos e irrepetíveis que – ainda que tu queiras e eu queira – nunca mais voltarão a acontecer. São o meu presente para ti.
Dois segundos que te entrego e em que desapareço, para que possas ganhar espaço e tomar, como teu, o tempo e o espaço em que estás agora. Para que respires. Para que te (in)definas.
Para que sejas capaz de olhar mais fundo e mais longe do que aquilo a que te habituaste, e percebas, de uma vez por todas, que a vida à superfície encerra muito mais do que aquilo que os teus olhos conseguem ver.


[“A vida à superfície” foi escrito a 28 de Julho de 2012. É “O” texto. Um princípio e fim de tudo. Um mantra. Um texto-mensagem que escrevi para uma pessoa em particular mas que gostava que tivesse sido escrito para mim.  “A vida à superfície” foi publicado originalmente no Obvious em Julho de 2012]


Trinta e sete

.  Ontem fiz 37 anos. Trinta e sete… E, como acontece com as coisas importantes da e na minha vida, pensei naquilo que poderia dizer e escrever sobre este assunto. Sobre o fazer anos, sobre o completar de um ciclo, sobre mais um ano de vida.

Mas recebi um e-mail. Que diz tudo. E que (devida mas ligeiramente editado) diz assim:

“Hoje fazes anos! E são as coisas más e as coisas boas e as coisas que encaixam ou vão encaixando.
Tiveste um bocadinho de tudo. Perdeste e soubeste como perder e voltar à tona, ganhaste talvez menos do que merecias, mas o que de bom te apareceu sabes que fizeste por o merecer. E em em todas estas coisas foste tu, mulher inteira e sempre mãe, que não é só bonita nos good-hair-days, que é uma fortaleza mas que sabe que às vezes é preciso fazer manutenção à muralha para se poder voltar.
Saber-me próxima de ti é um prazer, honra!, tudo. Das coisas boas que me animam e me enchem, és tu. Se te puder dar a mão, sei que sou útil e que já vale a pena sair da cama, nem que seja “só” por isso.
Gosto de ti, todos os dias. Parabéns, e amanhã já te aperto :)*”

E, tendo lido e sorrido com isto, não me apeteceu escrever mais nada 🙂

coisas que se dizem

.  Dizem que Deus, quando fecha uma porta, abre a janela. E que se choramos por termos perdido o sol, as lágrimas não nos deixam ver as estrelas.

Às vezes, a janela é tão pequena que só com muito trabalho, à força de braços e de vontade, se consegue alargar o suficiente para podermos ver o sol. E, como do esforço e da luta, os nossos olhos ficam toldados de lágrimas (seja de suor ou de cansaço), nem as estrelas conseguimos ver. Não vemos nada. Estamos apenas cansados.

Nestas alturas, vale-nos a mão que nos limpa o rosto, que se suja para nos tirar – a nós – aquilo que nos impede de ver.

A essas “mãos”, um grande obrigada.

perguntas sem resposta

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– Gostas de mim?
– Sabes que sim.
– Porquê?

Ah, este nosso hábito de classificar, codificar e avaliar tudo em palavras. As coisas – objetos, sentimentos, criaturas – só existem quando uma designação lhes é dada, como se as coisas e os objetos e os sentimentos se resumissem e definissem pelas letras que compõem o seu nome.
Precisamos de explicação para tudo. Tudo tem de ter uma razão, um sentido, analisado com um método. Um “sim” não nos basta, e um “não” tem de ter um porquê. Aquilo que não conhecemos perturba-nos, aquilo que não sabemos como definir tira-nos o equilíbrio.
Precisamos de estabelecer uma relação entre isto e aquilo, saber onde tudo fica, para que o cérebro – que se habituou à lógica e à matemática e à razão que o coração desconhece – compreenda, perceba, classifique, para que assim tudo faça sentido.

E dizemos que é amizade ou mais que isso, que é amor ou menos um pouco, que é paixão mas não tão quente quanto. E isso cansa. E como acreditamos – pela experiência que achamos ter – que as palavras perdem o sentido quando as dizemos muitas vezes (experimentem dizer céu vezes sem conta, e perceberão o que quero dizer com isto), evitamos repeti-las e guardamos, para quando e quem merece, aquelas (palavras) que nos são caras.

Ou então codificamos. E o amor é filial, ou paternal, ou conjugal. E temos melhores amigos, e amigos de ocasião. E tentamos – nesta ânsia insana de designar e codificar tudo – criar escalas de valores para, num olhar mais ou menos demorado, sermos capazes de perceber onde nos encontramos. Onde colocamos o outro relativamente aos outros. Onde fica aquilo que sentimos e que, ainda não sendo amor, também já não é amizade.

****

– Gostas de mim?
– Sim.

Desta vez não perguntei porquê. E assim fiquei feliz.