Fim-de-semana em grande :)

.  Este foi um fim-de-semana daqueles que nos enchem a alma e o coração 🙂

No Sábado fomos a Guimarães, conhecer – com os nossos olhos e com o coração da Marta – a bela capital da cultura. Um dia cheio de sol, de namoro e de Mariana, que teve o seu primeiro grande passeio (o primeiro em que teve noção do que estava a ver) e o seu primeiro piquenique. Comer sentada numa manta, correr na relva, ver o “caté-o”, caminhar muito, abraçar o coração vermelho da praça da cidade… orgulho de mãe.

Domingo, na festa de anos da tia Nini, brincou às escondidas, contou “u noi tê”, escondeu-se e correu, aprendeu a dar cambalhotas, comeu a sopa dos primos, riu com eles. Ver e estar com a minha família – a pequena e a grande – trouxe-me uma felicidade e uma paz como há muito não sentia. A felicidade constrói-se assim, nestas coisas quentes.

A minha menina está a crescer. Como as plantas, ao seu ritmo, com o respeito e a admiração dos pais.

Dois dias. É o suficiente para me trazer a tranquilidade que preciso 🙂

A história de dois Miguéis

.  Neste final de mês de Abril, deste Abril frio e chuvoso, morrem dois miguéis. Um na semana passada, outro – se calhar – hoje. O primeiro um grande político (dizem aqueles que o seguiam), um grande homem (dizem aqueles que o admiram), um grande filho e um grande irmão (dizem aqueles que o amam). O segundo, um marido que – aos poucos, como acontece com o melhor do bem e o pior do mal – vai perdendo, nos dias e no coração, a companhia da mulher que ama.

Não há palavras – ainda que eles o tenham tentado – capazes de descrever o vazio que fica quando o nosso amor se vai. Não há letras suficientes, nem frases mais ou menos compostas, que possam dizer – a quem não sabe – o que significa perder alguém a quem se quer bem. Ou se sabe, ou não. Tão simples quanto isto.

Uns e outro terão de aprender a viver com a saudade fácil, e a difícil. A fácil, revelar-se-á nas lágrimas e nos sorrisos que a recordação do outro (que se foi) traz quando se a chama. A difícil… essa é a pior. É a saudade daquilo que não chegou a acontecer, dos encontros que não se fizeram, dos beijos que não se trocaram, das mãos que não se apertaram, porque a vida fez outros planos e não deixou que os planos e as vidas fossem aquilo que deveriam ser. É a saudade mais dolorosa. A saudade que aparece quando menos se espera, quando já se pensava que estava tudo em paz, quando – naquele momento mais ou menos forte, mais ou menos frágil – se sente e sabe que o outro alguém deveria estar ali.

Numa noite igual a esta, há muitos anos atrás, perdi um amigo.

E (depois de tanto tempo passado, neste final de mês de Abril) ainda sinto saudades daquilo que devíamos ser hoje.

Amanhã é dia da mãe

.  Não o que está no calendário – esse é só para a semana – , mas o meu dia da mãe.

Amanhã vai ser dia de mãe e filha, daqueles que tínhamos antes e dos quais já sinto falta: eu e ela, a passear, a brincar, a correr, a ver livros e a fazer desenhos. Um dia nosso. Uma prenda minha. Da minha prenda. Para mim 🙂

o que podemos aprender com os livros

. Há dias, no Facebook, um amigo (“amigo/amigo”, não “amigo/friend”) publicou o link para um post onde fala sobre um dos filmes mais bonitos e delicados que já vi: Malèna, de Giuseppe Tornatore. Como diz o João, e bem, há mais beleza no filme do que aquela que é evidente aos olhos: tem Monica Bellucci, sim, mas tem mais do que isso. Tem comunidade, tem sociedade, tem preconceito, tem ascensão e queda, tem vida – tem tudo. Um filme daqueles que nos marcam, e onde podemos aprender mais do que a simples história que ele conta.
Como acontece com tantas coisas na nossa vida.

Nas férias da Páscoa, entre limpezas e arquivos de coisas passadas, arrumei livros que já li e já não leio mas que, de uma forma ou de outra, fazem parte daquilo que me fez ser. E, numa consulta que não demorou mais do que um folhear de páginas – porque os livros que se conhecem são como parte de nós, e sabemos, em segundos, onde encontrar o que de nós é – encontrei frases e linhas que são, na verdade, mensagens maiores que as palavras que as compõem.

“- Se eu ordenasse a um general que voasse de flor em flor como as borboletas, ou que escrevesse uma tragédia, ou que se transformasse em gaivota e se o general não executasse a ordem recebida, de quem era a culpa? Minha ou dele?
– Era Vossa – respondeu firmemente o principezinho.
– Pois era. Só se pode exigir a uma pessoa o que essa pessoa pode dar – prosseguiu o rei. – A autoridade baseia-se nisso”
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Muitas vezes somos nós o nosso próprio inimigo. Exigimos demasiado, projetamos em nós (todas) as forças que cobiçamos e admiramos nos outros, como se (todas) as forças dos outros se pudessem reunir, sem conflito nem dor, dentro de uma só pessoa.
Querer ser mais é a força impulsionadora para crescer. E admitir que o impossível existe é o princípio para se saber ser mais naquilo que se é.

“- Boromir dirá tudo quando chegar. Quando chegar, dizes! Eras amigo de Boromir?
Pela memória de Frodo passou, nítida, a recordação do ataque que Boromir lhe fizera, e por isso hesitou um momento. Os olhos de Faramir, que o fitavam, tornaram-se ainda mais duros.
– Boromir era um valoroso membro do nosso grupo – respondeu Frodo, por fim – Sim, eu era seu amigo, pela minha parte.”
J.R.R. Tolkien, O Senhor dos Anéis: As duas torres

Na vida, diferentes pessoas têm diferentes objectivos e diferentes caminhos a percorrer. Os sentimentos, quando os há, valem pelo valor que têm – muito, ou pouco, dependendo da força com que os alimentamos. As amizades, como os amores e as lealdades, não são mais verdadeiras só porque são mútuas, nem mais falsas porque só têm um sentido. São percursos, estradas, paths que nos levam de um ponto ao outro da nossa existência. E só isso basta para as tornar reais.

Mas passa-se uma coisa extraordinária. Como me esqueci de pôr a correia no açaimo e como, sem correia, o principezinho nunca se pode ter servido dele, ando sempre com uma dúvida: a ovelha terá ou não comido a flor?
Umas vezes penso: “Claro que não! O principezinho põe a flor todas as noites debaixo da redoma de vidro e, de dia,não tira os olhos da ovelha…” E fico feliz. E todas as estrelas se põem a rir baixinho.
Outras vezes, penso: “Uma distração e basta… se calhar, um dia, o principezinho esqueceu-se da redoma de vidro… ou a ovelha escapou-se-lhe de noite, sem fazer barulho…” E todos os guizinhos se transformam em lágrimas!..

Que grande mistério! Vão ver que também para vocês, que gostam do principezinho, nada no Universo fica na mesma se algures, não se sabe bem onde, uma ovelha que nós não conhecemos tiver ou não comido uma rosa…
Ora olhem para o céu e pensem: “A ovelha terá ou não comido a flor?” Vão ver como tudo muda…
Antoine de Saint-Exupéry, O principezinho

Copo meio cheio, meio vazio, estrelas a rir ou a chorar, tudo depende não (só) do nosso ponto de vista mas da forma como vemos as coisas. Como e onde nos focamos. Aquilo a que damos importância. A mesma tarefa, o mesmo projeto, a mesma empreitada, podem ser grandes ou pequenas, alcançáveis ou impossíveis – tudo depende da forma como decidimos olhar para ela, da lente da alma que decidimos colocar à frente do coração.

“- Só me pôs nos Gryfindor – disse Harry numa voz débil – porque eu pedi para não ir para os Slytherin.
– Exacto – disse Dumbledore a sorrir – E isso torna-te muito diferente de Tom Riddle. São as tuas escolhas, Harry, mais do que as tuas capacidades, que mostram quem de facto és.”
J.K. Rowling, Harry Potter e a Câmara dos Segredos

Dizem que todos nascemos iguais. Dizem que todos temos as mesmas oportunidades. Dizem que todos podemos escolher.
Todos somos tudo… a diferença está na forma como, sendo e podendo ser tudo, queremos ser grandes naquilo que nos faz ser únicos.

sobre a amizade


.  Sabes que alguém é teu amigo quando, deixando-te o espaço e o tempo que precisas para te encontrares, te vai mostrando em pedaços de carinho – que podem ser grandes ou pequenos – que está lá, presente, perto enquanto longe, para te dar – quando quiseres – o abraço que te faz falta.
E sabes que alguém é teu amigo quando, não se intrometendo nem forçando nem dizendo a toda a hora que “o pior já passou”, te diz – mesmo sem palavras – que a tua dor é a sua dor, e que as tuas lágrimas são as suas lágrimas, e que mesmo não podendo saber aquilo que sentes o peso que sente no seu peito é o mesmo peso que tu sentes no teu.

Sabes que alguém é teu amigo quando te respeita. Quando não te força a avançar. Quando não minimiza a dor que sentes, forrando-a com palavras cheias de nada. Sabes que alguém é teu amigo quando não te força a rir, mas fica feliz quando vê que já consegues não chorar.
Sabes que alguém é teu amigo quando, sem saber bem o que te dizer, diz apenas que “o amor vale sempre a pena”. Ainda que doa, ainda que esmague, ainda que te tenha deixado no peito uma coisa que é felicidade e saudade daquilo que foi e já não é.

E sabes que alguém é teu amigo quando sabes que – ainda que sintas que não tens jeito com as palavras e te pareça que não consegues pôr para fora tudo aquilo que sentes – ele vai entender exatamente o que queres dizer, mesmo que não sejas capaz de dizer uma única palavra.

Porque um amigo é assim. Leva consigo e guarda em si o pedaço de alma que lhe demos emprestado, para nos devolver quando a vida – como ela é – nos eleva ou nos sacode sem aviso.

São amigos.
E isso basta.


[para a Cátia. que me ajudou a encontrar o caminho. “sobre a amizade” foi publicado originalmente na Obvious, em Março de 2012]