Post ainda sem título

.  “Há já algum tempo que não escrevo neste espaço” é uma frase que aparece com frequência naqueles blogs cheios de leitores e seguidores, e que normalmente vem seguida de uma interessante justificação-explicação que envolve projectos profissionais, pessoais, mudança de casa, adopção de um cão, mudanças na gaiola do canário, you name it.

Pessoalmente, gostaria de ter começado esta mensagem com essa mesma frase – porque tenho necessidade, na maior parte das minhas aventuras, de por por escrito o “antes” e o “depois”, o “até hoje” e o “a partir de agora”. Sou assim, pronto. Mas como não comecei dessa forma, não seguirei nessa linha e salto directamente (não, aqui o acordo ortográfico não manda) para aquilo que me fez escrever o post: o que eu queria ser /como eu queria viver um dia. E seria assim: mãe de filhos, dias que passam devagar, crianças a brincar no chão de madeira, apanhar pinhas e folhas secas.

É parvo/idiota? Talvez. Pelo menos para quem não me conhece ou me conhece mal. Quem me “sabe”, sabe que para mim isto é tudo, que ver crescer as coisas que a natureza cria e as crianças que a vida nos dá a honra e o privilégio de ter me dá uma paz e uma satisfação/realização que nenhuma carreira brilhantemente fulgurante seria capaz de dar.

Há quem se realize nas/pelas grandes coisas. Eu faço-me com as pequenas 🙂

sobre o amor


. Tenho pensado muito nisto, no amor. Um pensamento estranho – contudo incontrolável e incontornável -, quando as notícias só falavam de crise, de solidão, de falta de afecto… não é?

Num destes fins-de-semana, num dos projetos em que me envolvo uma vez por mês, tive acesso a uma lista de nomes de pessoas que, este ano, fazem 50 anos de casados. 50 anos. Cinquenta. Casados em 1962, quando o namoro era pouco mais ou muito menos que um beijo, quando não se gostava – porque não se conhecia nem se sabia – dos mesmos filmes, dos mesmos livros, das mesmas viagens ou da mesma música.

E foi isto mesmo que me fez pensar no amor. Que amor é este, que amor foi este, como surgiu este amor num tempo em que o namoro (como nós o conhecemos) não existia? O que terá levado estas pessoas a gostarem uma da outra, e a decidirem construir – ao longo de uma vida felizmente longa – uma vida feita de duas vidas?

Na segunda, a visualização de um vídeo partilhado por um amigo no Facebook fez-me de novo pensar nestas coisas. Lembrei-me de um casal que tenho o privilégio de conhecer: os dois na casa dos 70, ele com o corpo dobrado pelo tempo e ela com a mente quebrada pelo alzheimer.
Passeiam os dois, de braço dado, ela a perguntar – de cinco em cinco, de dez em dez minutos – o nome das pessoas com quem se cruzam. E, de todas as vezes, ele aperta-lhe a mão e responde com doçura: “é a Mónica, é o Carlos, é…”. Vez após vez. Repetição após repetição. Sorriso após sorriso. Sem nunca se cansar, sem nunca se irritar. Uma tarde inteira.

E eu pergunto, na ignorância dos meus 36 anos: que amor é este, paciente e que nunca se enerva? Que afecto é este que dura e se renova enquanto as memórias se apagam?

E lembro-me, ainda, daquela senhora que aos vinte e poucos anos fica viúva, com quatro filhos pequenos, aos quais não deseja impor o amor de um novo pai. E de como – vinte anos depois – recebe com doçura e gratidão o amor de um homem que a amou toda a vida, que respeitou o desejo dela e esperou, durante todo esse tempo, pela retribuição e confirmação do amor que sempre sentiu. E que viveu, com ela e junto dela, 16 anos de uma felicidade imensa.

E eu pergunto: que amor é este, feito de fé, que perdura ao longo de duas décadas, alimentando-se do desejo e da promessa de vir a ser – um dia – aquilo que durante esse tempo foi só uma esperança?

São histórias que conheço, que me são próximas e para as quais olho com carinho.
Porque um dia gostava de responder às questões que coloco hoje. Porque olho para mim, para nós…
e penso que nos faz falta amar assim…



“Sobre o amor” foi escrito em Fevereiro de 2012. Dois anos de Mariana, fase muito introspectiva, tempos de reflexão. Hoje, 5 anos volvidos, continuo a sentir que o amor deve ser assim: paciente, feito de pausas, de sossego. Vivemos no rápido e no imediato, e o amor precisa de tempo. Precisa, não precisa?
“Sobre o amor” foi publicado originalmente na Obvious em Fevereiro de 2012]


conversas*


 – mas dói-te? onde é que te dói?
– não dói, é assim uma coisa… lembras-te quando em casa da tia comeste bolo e ele não descia, e tu disseste que estavas com uma coisa aqui (bate no peito) que não descia e que não doía mas que parecia que doía?
– sim…
– pronto, é isso.
– mas quando é que começou a doer?
– já te disse que não dói! (enche o peito, mordendo os lábios como quem morde azedas. e depois suspira) foi do cheiro do cabelo dela. cheira a macio.

– já sei
(ri, enquanto se levanta e põe as mãos nos bolsos)
anda… vamos dizer à mãe que estás apaixonado.


[este texto apareceu de repente na minha cabeça. dois rapazes, um loiro outro moreno, sentados num muro e a conversar sobre a vida. os filhos da Anabela :), ainda que ela não saiba disso. “conversas em minúsculas foi publicado originalmente na Obvious em Fevereiro de 2012]


doze dias

[12 de Janeiro de 2012]

O novo ano já tem doze dias. Doze, uma dúzia, duas mãos mais dois dedos, metade das horas que fazem um dia, o mesmo número dos meses do ano. Os dias que, segundo o povo, prevêem o tempo que vai estar de Janeiro a Dezembro.

Doze.

E o que fiz eu nestes doze dias? Pouco ou nada, ou muito – depende da forma como quiser encarar as coisas. Se pensar nestes dias como um estágio (não daqueles em que nos fazem arquivar documentos e servir cafés quando devíamos estar a desenvolver aplicações ou a construir a base de uma profissão, mas daqueles que os jogadores de futebol – essas figuras de relevo que são aquilo que metade dos rapazes do mundo gostaria de ser um dia – fazem antes de um jogo importante (ou não importante, não importa, que importantes são eles, esses jogadores, e o resto nem interessa) foram bastante produtivos.

Mas já me perdi. Do que é que eu falava? Ah, sim, dos doze dias que o ano já tem.

Doze.

Caramba… se eu tivesse incluído nas resoluções de ano novo (que não fiz) a resolução de escrever uma página da tese por dia, já teria doze páginas. Ou melhor, já teria mais doze páginas, a adicionar aos conjuntos de doze que já tenho escrito. E, agora que penso nisso, devia ter feito essa resolução. Essa e muitas outras, daquelas que incluem cortar no café, fazer ginástica, deixar de escrever com tantos parênteses, comer mais brócolos e passar a usar vestidos.

Mas não tive tempo (as últimas doze horas do décimo segundo mês do ano passei-as a tentar controlar a febre da minha filha), nem pachorra. As resoluções tomam-se no dia a dia, taco a taco, e não nas últimas horas de um ano que, dali a pouco, vai deixar de ser presente.

Perdi-me de novo, não perdi? Pois.

Estava a falar do ano novo, e dos doze dias que já passaram. Do meu estágio de doze dias. Dos dias em que fui mãe, e enfermeira, e dei colo e mimo; dos dias em que fui filha e fiz o que as filhas fazem, que é conversar com os pais e fazer-lhes companhia, provando-lhes (como se isso fosse preciso) que continuam a ser uma das coisas mais importantes da nossa vida; dos dias em que fiz bolachas e biscoitos e percebi que até posso ser incapaz de fazer um bolo, mas que as minhas bolachas – feitas de farinha e mimo e risos da minha filha – são as mais deliciosas que já comi na vida.

Doze dias.

A partir de hoje, o décimo segundo dia do primeiro mês do ano de dois mil e doze, tenho um lugarzinho no “lounge” do Obvious. Ainda tenho de decidir o nome desse espaço – gavetas e caixas já tenho, e estou com vontade de ter uma coisa nova – e quero fazê-lo até à décima segunda hora da segunda parte do décimo segundo dia deste novo ano.

Se calhar vou-lhe chamar “doze”.

O que dizem? 🙂