sobrevivi

.  Consegui sobreviver ao dia de hoje, o quinto de um conjunto de dias pautados por febres, choros, apatias e desconsolos. Um dia que, para além das febres e dos choros e das apatias e dos desconsolos, teve ainda a pesar a angústia do resultado de um exame. Uma manhã terrível, em que só queria fugir para um espaço da minha mente onde doenças não existissem, células não se alterassem e a saúde não fosse um bem mas um direito instituído.

Passou o dia de hoje. A Mariana está melhor, não come mas quer brincar; os exames da minha mãe não acusaram nada, e resta apenas mais um para podermos, até nova ameaça, descansar e não pensar em coisas más.

Ontem chorei, de cansaço e de angústia, com o medo de poder perder quem amo mais do que a mim própria. A minha mãe ensinou-me a ser gente, ensinou-me a ser mãe, faz parte da minha vida. É por ela que respiro fundo, foi por causa dela que aprendi a calar e a não ferir, com respostas, aqueles que preferem agredir com palavras.

Cada dia que passo agradeço a escolha que ela fez – que começou antes de eu nascer – e a forma como me fez “gente”. Tenho orgulho em ser sua filha, e de ter uma filha que é sua neta. Digo-lhe isto todos os dias (por muito cansativo que seja de ouvir), e não guardo para ocasiões especiais o beijo que gosto de lhe dar ou o “gosto muito de si” que (sei) ela gosta de ouvir.

Sobrevivi ao dia de hoje. Mas estou fisicamente exausta… e muito, muito cansada.

a culpa é dos filmes

.  Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. A reserva que instintivamente se coloca nos relacionamentos – aquela que vai sendo negociada, gerida, até chegar à entrega confiante – deixou de ter sentido com a chegada deste ser pequenino e exigente.

Ao longo da vida – por muito curta que ainda seja – vamos acumulando experiências que, de uma forma mais ou menos clara, influenciam a maneira como nos comportamos em relação aos outros. A experiência da perda, por exemplo, pode-nos levar a erguer barreiras aos sentimentos mais intensos: tomámos consciência da fragilidade da vida, o que amamos pode-nos ser tirado. E o cérebro aprende, e a alma guarda. E tornamo-nos defensivos. Cautelosos. Tristes. E, como um caminho que ainda não conhecemos mas achamos que já sabemos onde vai terminar, recusamo-nos a percorrer a estrada potencialmente cheia de alegrias. Mais vale não amar do que sofrer por amar demais, não é?

Foi então que a Mariana chegou. E ensinou-me – aos bocadinhos – que viver com medo não é tão romântico quanto parece nos filmes. Que a consciência do efémero não é sempre sinal de maturidade ou experiência, mas que pode ser uma cadeia, uma zona de conforto desconfortável. Ela, pequenina, foi-me vencendo aos poucos. E foi-me ensinando a confiar nela, e a acreditar que coisas boas acontecem.

Amo a minha filha. Amo-a, intensa e ardentemente, de uma forma avassaladora que pensei nunca sentir. E sabe bem amar assim.

medo

.  Há dias atrás uma amiga disse-me que “ser mãe é ter medo. sempre, para toda a vida”. Esta amiga tem 28 anos, ainda não é mãe, mas aprendeu da mãe – dela – o sentimento de recear as ameaças ao bem-estar e felicidade de alguém que nos enche a vida de forma irremediável.

Desde que pensei a Mariana que tive medo. Medo que ela não passasse disso, de um pensamento; medo que ela não fosse uma confirmação; medo que as coisas não corressem bem; medo que eu não corresse bem. Depois, aos bocados – e recorrendo àquele lado racional, forte, sereno, que me orienta quando me desoriento – consegui sufocar esse medo, empurrá-lo, enfiá-lo numa caixa para que não me assombrasse e ensombrasse a felicidade.

Mas esse medo, fechado na caixa, é como aqueles bonecos de mola: está lá, compactado, à espera de uma folga para se poder soltar. E, de vez em quando, salta. E, nessas alturas, luto de novo para não me deixar submergir pela ameaça do que ainda não existe e do que pode nunca existir (um acidente, uma doença).

“Um dia, quando fores mãe, vais perceber”, diziam-me. Agora sou mãe. E percebo.

sobre o amor

.  O nascimento de um filho muda-nos de uma forma que se vai percebendo ao longo do tempo. Depois daquelas coisas básicas como a luta com a alimentação, as horas de sono, o incutir de rotinas… depois dos dentes, e dos choros, e das birras, e de tudo… depois disto, ou ao longo disto, percebemos que mudamos.

E é uma mudança tão boa, uma coisa tão grande e tão autêntica que quase se pode dizer que, com o crescimento de um filho, também nós aprendemos a crescer. Um filho é uma oportunidade de nascer de novo, de viver uma nova infância mas agora de forma mais consciente e plena.

A Mariana – 9 quilos e pouco de gente – mudou tanto, mas tanto a minha vida, que não há formas de descrever o que eu era antes e o que eu sou agora. E sentir o calor daqueles olhos que não são castanhos nem verdes, e receber aquele sorriso cheio de dentes pequeninos, e deixar-me envolver naquele abraço tão pequeno que consegue abarcar o mundo… é uma coisa pela qual vou ficar grata o resto da minha vida 🙂

post politicamente incorrecto

.  Gosto da minha sogra.

A minha sogra é uma pessoa fantástica. Humilde, trabalhadora, generosa, daquelas pessoas que não esfrega na cara dos outros o que tem, mas que em cada dia mostra o que vale. A minha sogra, dentro da sabedoria que lhe deu a vida e para a qual a escola só contribuiu com seis anos de “ensino”, tem uma frase que vale ouro mas que demorei a compreender: “Estou farta desta merda”.

Só isto. Diz isto quando, no Verão, as notícias sobre os incêndios enchem e preenchem os noticiários de hora a hora. Diz isto quando o bolo, pela décima vez, teima em não crescer. Diz isto quando, à hora de jantar, as notícias repetem até à exaustão coisas sobre a austeridade, e o IVA, e os políticos que se enchem e o país que está mau. E, quando diz isto, di-lo com a consciência de que sim, que estamos mal. Que sim, que não vamos ficar melhor. Mas, simplesmente, está farta que lhe repitam isso.

Gosto da minha sogra e, sobretudo, admiro-a. Talvez pela sua capacidade de gerir, pela sua generosidade, pela maneira como levanta a cabeça sem medo de enfrentar as coisas más que estão para vir. Ou, talvez, porque também eu “estou farta desta merda”.