sem título

_ admiro o Pedro Tochas. já fui a três espectáculos dele e, por isso, sei um pouco do que a casa gasta: se abusarmos nos comentários podemos virar motivo de gozo o resto da sessão, se estivermos na primeira fila (e eu já estive) podemos ser atingidos com objectos ou ser convidados a subir ao palco, se sairmos a meio para ir ao WC, comprar água ou o que quer que seja ele pára o espectáculo e espera – falando nisso – que regressemos à sala.

são espectáculos interactivos, semi-estruturados, com piadas fáceis e difíceis. são espectáculos que tornam suportáveis estar a apanhar pingos de chuva na cabeça, enquanto se ouve um “é men (expressão de guerra), esta sala é das melhores onde já actuei”.

quando, no final de uma sessão, fica na sala para “responder e falar convosco sobre o que quiserem”, dá ao público a possibilidade de falar com o artista – não o personagem – que tem orgulho em ser palhaço. que gosta do que faz. que gosta de correr mundo, viajar, que gosta de actuar na rua e receber moedas pelo seu trabalho. que trabalhou para  a Frize, é certo, e que “nunca tanta água se vendeu às custas de um gajo como eu”.

não é (só) pelos espectáculos que gosto dele. é, sobretudo, pela paixão que coloca naquilo que faz, o amor que tem à sua arte. é coisa que se nota, que se sente, que se respira. é coisa que (quase) contagia.

e é isso que me falta.

paixão. amor tenho, e de sobra: pela Mariana, pelo papá dela, pela minha família, pelo mundo em geral e pelas flores em particular. mas falta-me paixão. aquela quente, que mexe, que motiva, que faz avançar. aquela agitação que nenhum copo (ou copos) de café consegue substituir.

por isso vou procurá-la. à paixão. que não pode ser só de escrever mas tem também de ser. de sentir. de viver.

quando a encontrar volto. até lá, fiquem bem. e leiam livros 🙂

eu e o palco

. há qualquer coisa nos palcos que me atrai. não sei se é o cheiro a madeira, a cera, se é das luzes, do som oco dos passos, de ter uma plateia inteira (e de preferência vazia) à minha frente, mas o certo é que os palcos me atraem desde pequenina.

experiência de palco tenho pouca, e mesmo assim essa pouca pouco é mais que umas quantas representações em festas de escola. mas, mesmo essas – num palco que não cheirava a madeira, a cera, e que não tinha uma plateia vazia – tornaram-se momentos de liberdade que são, ainda hoje, impossíveis de esquecer.

percebo perfeitamente o que dizem quando dizem que “o palco transforma-nos”, que “no palco somos outra pessoa” ou, ainda, que “quando saio daquele chão volto a ser eu”. porque também já experimentei isso, ainda que tenha sido (apenas) em peças de escola.

quando se sobe a um palco ganha-se uma liberdade de acção, de discurso, de atitude e sentimento que na maior parte das vezes não é possível na vida real. o palco, enquanto ambiente circunscrito a uns metros e contextualizado a um tempo definido, torna lógico o comportamento e a expressividade mais dissonante. no palco poderia dizer “queria que todas as pessoas desaparecessem e me deixassem só, comigo e com eu mesma”, que ninguém viria perguntar se eu estava bem, a quem me referia em particular ou pedir desculpa por não terem reparado nos meus problemas.

porque às vezes não os há. às vezes apetece, apenas, inventar diálogos e conversas que só existem na imaginação, que não são auto-retratos nem resultado de uma análise profunda e introspectiva. apetece fingir que se é outra pessoa apenas pelo prazer que tiramos disso, sem estar a tecer qualquer crítica ou a mostrar, representando, que não se está bem com aquilo que se é.

imaginar.

falta-nos imaginação. falta-nos, sobretudo, acreditar nessa capacidade que tínhamos em pequeninos e que o tempo e o crescimento se encarregou de desvalorizar.

deve ser isso que me atrai no palco. no palco em si, não na ideia de palco. porque no palco posso declamar a balada da neve, fazer uma pirueta e abraçar-me enquanto faço uma vénia, e não correr o risco de receber, no final, o sempre e eterno comentário “tu não és assim”. porque há o palco, e há a vida.

gostava que, um dia, esta caixa fosse o meu palco 🙂

sobre a dignidade e/ou o direito de dar resposta

.  há pessoas cruéis. podem vir com aquela do “todos temos um lado negro”, com o “de génio e de louco todos tempos um pouco” mas crueldade, daquela que corrói, que mancha, que dá mau sabor na boca, essa é coisa de gente doente ou pura e simplesmente má.

recebi agora um e-mail de uma pessoa má. não me era dirigido directamente mas a maldade era tanta, o fel era tão espesso, que não consegui deixar de me sentir afectada pelas palavras tão conscenciosa e maldosamente escolhidas. mas… e agora?

aquela coisa da “dignidade” impõe que não se dê resposta. que não se dê à pessoa má a satisfação de ver a sua maldade explicada, dissecada, combatida. impõe-se (ainda mais pela delicadeza e natureza do assunto) que se deixe a pessoa falar, e repetir, e voltar a falar e voltar a repetir, até que se canse.

mas está mal. quando somos insultados e maltratados, ainda que apenas por e-mail, deveríamos ter a obrigação – porque o direito já o temos – de responder da mesma forma. de, a um “falta de imparcialidade” responder com um “prepotência”, de a um “falta de integridade” responder com um “idem”.

devíamos poder responder à letra. letra a letra. palavra a palavra.

mas não. porque somos superiores (ou inferiores), porque somos mais dignos, porque a pessoa não merece, não respondemos no mesmo tom. ou, pior ainda, não respondemos mesmo.

e deixamos que o fel continue a crescer naquela pessoa, que ela continue a falar mal na nossa frente e nas nossas costas, que continue a arrasar o nosso trabalho só porque não é o seu trabalho, que continue a ser como é: má. cruel.

está mal.

por isso é que eu falo a sério quando digo que queria acabar os meus dias velha, muito velha, e ligeiramente louca. para poder dizer “e tu és feia” quando me dizem “tu estás gordinha”. para poder dizer “não gosto de ti” a quem sempre me fez a vida negra. para poder dizer um “vai à merda” quando me apetecesse.

uma velha, ligeiramente louca, com acesso à internet. ah, isso sim, seria um bom final.

talvez nesse dia decidisse ser má.

mas, para já, resigno-me em ser digna. e a não dar resposta.